Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O segredo de uma vida feliz

Essa é uma das questões que sempre nos acompanhou ao longo da trajetória humana. Podemos dizer que nosso comportamento possui como um de seus motivadores centrais a busca pelo bem-estar e a alegria, ditos de uma maneira mais simples, da felicidade.

Mas quais são as coisas que nos deixam felizes? Talvez o estudo longitudinal mais longo realizado na história da ciência - superior a 70 anos -, elaborado pela Harvard Study of Adult Development da Harvard Medical School, coletou dados diversos de 200 estudantes homens. Os dados investigavam uma lista ampla de características, tais como saúde emocional e física, e as comparavam com suas carreiras, casamentos, hobbies e nível de satisfação com a vida.

Foi encontrado que a prática de exercícios físicos está correlacionada positivamente com uma boa saúde mental na terceira idade, e que a prática religiosa, ou proximidade com uma religião, não está associada com saúde física, mental ou bem-estar social. Certamente que diversas variáveis controláveis são preditoras de uma vida feliz, enquanto que outras nem tanto (como os fatores biológicos relacionados à longevidade dos ancestrais), mas um dado pode ser apontado como um dos principais fatores da felicidade: Bons relacionamentos. Os relacionamentos satisfatórios com outros significativos, como pais, cônjuges e filhos desde a infância são os preditores mais importantes da felicidade.

O artigo pode ser lido aqui (em inglês).

Sábado, 27 de Junho de 2009

O Cérebro e a Mente (II)

Seguindo o raciocínio do último post, onde se discutiu o problema da dicotomia mente-corpo, a entrevista com o médico fisiatra John Sarno faz uma importante relação entre o fenômeno da dor e suas causas.

Muitos pacientes na clínica médica reclamam de dores que não são bem explicadas por nenhuma patologia orgânica definida. Isso gera por um lado uma busca gigantesca por novos diagnósticos, ao mesmo tempo em que pode gerar um preconceito contra o relato dos pacientes que não "colaboram" com o tratamento. Contudo, geralmente se esquece as relações entre mente e corpo, que por serem invisíveis na clínica médica não são levadas tão a sério como causa da dor.

Os achados de Sarno apontam que as vivências emocionais traumáticas de etapas anteriores da vida podem efetuar registros no sistema nervoso central, a ponto de baixar o limiar de dor. A recuperação e a vivência destas experiências podem levar a um alívio dos sintomas e a um resgate da qualidade de vida do paciente. Para finalizar: a psicanálise já cantou esta pedra há cerca de 100 anos, não sendo novidade na área psicológica.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

O Cérebro e a Mente

Por mais que os profissionais lutem contra o pensamento cartesiano no estudo do comportamento, é curioso observar como o entendimento da relação entre mente e cérebro ainda está permeada por esta divisão. É muito comum que escutemos em congressos, seminários, leiamos em livros e artigos frases como "É essencial considerar o ser humano como um todo integrado" ou "Não há como separar o comportamento de sua base biológica". Se as pessoas dizem isso com tanta frequência, deve ser porque os profissionais ainda devem ser convencidos que essa divisão não deve acontecer. Isso porque ela acontece na prática.

Um dos pontos em que isso pode ser observado é na descrição usual da relação entre a mente e o corpo. Por óbvio que são coisas distintas, mas inter-relacionadas. Se perguntarmos a um profissional da saúde mental qual a relação entre as duas, dirão, como exposto acima, que não há como dividir, etc. Mas aprofundando o questionamento, os psicólogos parecem pender a balança para algo do tipo "os aspectos emocionais/cognitivos influenciam mais o comportamento" enquanto que o campo médico/biológico enfatiza a "estrutura e funcionamento" do cérebro.

Esse jogo de forças conceitual pode ser facilmente resolvido com o entendimento da teoria da evolução das espécies. A evolução preconiza que as modificações do organismo de uma espécie ocorreram para que ela tenha melhores condições de sobrevivência, e, principalmente, de reprodução. O cérebro e o comportamento de nossa espécie também estão sujeitos a estes mesmos princípios: se hoje pensamos e sentimos da forma como fazemos, isto é produto das forças que delinearam e modelaram o cérebro. E o ambiente social é uma poderosa força modeladora: cérebro e mente co-evoluem a partir das influências ambientais, entenda-se, influências da sociedade, que é o ambiente humano natural.

Quanto melhor este tema for debatido nos cursos de formação, mais condições teremos de realmente superar a ponte que separa essa dicotomia cartesiana. Mas isso somente poderá ocorrer se os professores também conhecerem a teoria da seleção natural.

Domingo, 29 de Março de 2009

Os dois cérebros

É impressionante o relato da neurocientista norte-americana Jill Bolte Taylor sobre a experiência de um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Ela acordou um dia e percebeu que estava tendo um derrame, e esta experiência proporcionou-lhe uma visão bem distinta sobre o funcionamento do cérebro e a relação entre os hemisférios esquerdo e direito.

De forma sucinta, o hemisfério esquerdo processa as informações relacionadas com os componentes racionais-cognitivos, enquanto que o hemisfério direito realiza a integração de outros estímulos, não-racionais. A integração entre estas duas partes permite que nós nos relacionemos com o mundo como fazemos.

Entretanto, a experiência vivida por Taylor mostra como seria se nossa parte esquerda, racional, fosse "desligada" momentaneamente. O aspecto racional da análise das coisas seria fortemente suprimido, e o lado "sentimental" tomaria predominância na forma como percebemos e nos relacionamos o mundo.

Pode-se dizer que a descrição da experiência se aproxima de uma experiência mística; são relatados sentimentos de perda do "eu" e uma sensação de unidade com o Universo. Portanto, é interessante questionar se a predominância do funcionamento do hemisfério direito poderia favorecer as experiências religiosas.

O conteúdo da experiência de Taylor pode ser visto aqui.

Domingo, 1 de Março de 2009

A simplicidade do criacionismo

É interessante observar como o pensamento científico parece, talvez na maior parte das vezes, ir na contramão do raciocínio humano. Um exemplo disso é o fato de que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Bem, nossos sentidos nos dizem que é o Sol que gira em torno da Terra, afinal, estamos "parados", e fica difícil de imaginar que o que ocorre na verdade seja o contrário. Isso foi uma verdade por muito tempo, e foi a duras penas que o geocentrismo caiu.

O processo evolutivo dotou nosso cérebro com habilidades paradoxais: ao mesmo tempo que somos curiosos, parecemos preferir as respostas mais simples, mesmo que sejam imprecisas, porque isso gera menos ansiedade. Quando alguém está passando por algum problema, geralmente pensa: "O que fiz de errado para estar sofrendo assim?", e como tentativa de responder a essa questão, lança mão de uma resposta única: "Estou mal porque fiz isso", ou "É por culpa de Fulano". Uma resposta, mesmo que não tão precisa, reduz a ansiedade que certamente surge quando temos que lidar com várias alternativas, e corremos o risco de escolher a solução errada. E ansiedade excessiva reduz as chances de sobrevivência.

O criacionismo faz isso. Com a intenção de querer explicar a complexidade da vida e do universo, acaba "jogando" para a suposta existência de um ser superior a explicação, simples, de que este ser criou tudo. Esse mecanismo gera tranquilidade, mas no fim não explica muita coisa. Além disso, tem o inconveniente de "misturar" aspectos científicos com a dimensão moral. Em vez de clarear a discussão, este tipo de vínculo, realizado desta forma, torna o problema mais espinhoso, porque toca na nossa necessidade primata de amparo (vide A necessidade da fé).

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

O que é a ciência, afinal?

*Este artigo foi publicado no jornal O Rodinho, da IMED. Aqui reproduzo na íntegra o texto, que pode ser conferido também aqui.

Amigos, é com muita alegria que aceitei o convite d'O Rodinho para escrever uma coluna. E como não poderia deixar de ser, vou escrever sobre um tema que acho bem importante e ao mesmo tempo pouco conhecido: o que é a ciência.

O título desse artigo foi tomado emprestado de um livro escrito por Alan Chalmers, pela editora Brasiliense. Neste livro, o autor tenta responder a esta tão importante pergunta de uma forma clara e divertida, afinal a ciência não é uma coisa "chata", só para os iniciados; ao menos, não precisa ser desta forma. E essa é uma das primeiras visões que a gente tem da ciência, que ela é algo obscuro, cheia de fórmulas complicadas e incompreensíveis. É claro que a ciência tem uma linguagem própria, porque se ela busca compreender o mundo de uma forma mais clara e precisa, deve desenvolver mecanismos que possam atingir estes objetivos. Então não são todas as pessoas que compreendem a ciência, pois muitos não tem interesse em conhecer esta linguagem ou então, o que é pior, tiveram uma péssima primeira impressão da ciência, e querem estar longe dela.

Escrevi recentemente um artigo onde eu comparava a curiosidade da criança à do cientista. Os dois têm isso em comum, mas é claro que a curiosidade do cientista é mais refinada, porque para que ele possa responder as perguntas propostas, as questões não podem ser feitas de qualquer maneira. Também o cientista utiliza-se de um método específico para a ciência, que é chamado de método científico. Além de ser uma disciplina que ensina o aluno a "como fazer trabalhos acadêmicos", a metodologia científica se propõe a organizar as possibilidades de produção do conhecimento, para que aquilo que é investigado possa ser mais claro para os colegas cientistas. Mesmo porque o conhecimento científico é diferente do conhecimento da vida real (o senso comum), do conhecimento filosófico e do conhecimento religioso. A ciência busca ser clara em suas respostas, como dissemos, pois é essa clareza que permite que ela possa ser um conhecimento mais preciso.

Para esta precisão, as ciências utilizam via de regra a linguagem matemática, e aqui está uma coisa que faz com que os estudiosos das ciências humanas se arrepiem. Geralmente os pesquisadores das ciências humanas não gostam da linguagem matemática por várias razões: ora porque entendem que a matemática não pode explicar tudo, ora porque não tiveram treinamento para compreender o que significa uma informação matemática, ora porque não gostam mesmo de matemática. Muitas vezes essa crítica vira repulsa, que pode ser uma repulsa injustificada. Pode-se criar "pré-conceitos" contra a matematização das ciências sem uma base coerente para discutir esse comportamento.

Uma das críticas a isso é que a linguagem matemática seria "infalível e precisa". Não é isso o que acontece. Uma das ferramentas mais utilizadas nas pesquisas em ciências humanas é a estatística, e ela não lida com a precisão, lida com probabilidades. Ou seja, ela não diz: "As pessoas que perderam alguém importante fatalmente terão depressão", mas sim "É mais provável que alguém que tenha perdido alguém importante tenha depressão". Qual a diferença? toda. Pois no primeiro caso se está assinando uma sentença, enquanto que no segundo a informação dá uma condição de alta probabilidade, mas não de certeza. Portanto, atenção quando você ler uma pesquisa: ela não é definitiva. Pois se a pesquisa fosse definitiva, não haveria avanço no conhecimento científico (é por isso que a ciência vai se aprimorando, porque ela revê seus conceitos e conhecimentos).

Deveríamos ter o primeiro contato mais sólido com a ciência no ensino médio, mas também não é isso o que vemos como regra. Questionando as várias turmas com as quais dou aula, sempre tenho o costume de perguntar: "Vocês tiveram aulas em laboratório de química, física e biologia no ensino médio?" Cerca de 85 a 90 por cento dizem que não tiveram; e os poucos felizardos que tiveram, me dizem que foram uma ou duas vezes nos três anos, e ficaram assistindo, ou seja, não realizaram um experimento do início ao fim. Então, pergunto: como desejar que a ciência brasileira se destaque no mundo? Temos, sem dúvida, ótimos cientistas, mas estes são verdadeiros heróis, pois tudo foi contra sua vocação. Então, acaba que o primeiro contato com a ciência ocorre no ensino superior...

Acho muito importante que os alunos do ensino superior discutam e, principalmente, conheçam a ciência. É possível que este seja o último momento onde terão a possibilidade de discutir esse tema, pois depois que se formarem (exceção aos que quiserem a carreira acadêmica), provavelmente não terão mais esta oportunidade. Então, sejam críticos, perguntem aos seus professores qual é a base dos seus conhecimentos, e como este conhecimento foi produzido, pois tão importante quanto uma boa bagagem de conhecimentos técnicos, é fundamental ter um espírito crítico. E isso a ciência tem de sobra.

Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Camaleônidas



Grande Ser, agradecemos por este período bom. Somos criados à tua imagem e semelhança, embora pequenos e camaleões, porque és benevolente. Que teus olhos independentes olhem sempre por nós. Que possamos nos aproximar da tua infinita e perfeita capacidade de se adaptar ao ambiente, mesmo sem compreender exatamente como isso ocorre. Que todos os camaleões possam agir como se tivessem nascido da mesma ninhada, e que sejam cada vez mais camaleônicos e sensíveis, e tenha misericórdia daqueles seres que não nasceram com a perfeita capacidade de mudar de cor.

Reconhecemos que, embora pequenos, nos fizeste melhores que os outros seres porque podemos mudar de cor, e por isso utilizamos esta capacidade para lhe amar sempre mais e mais, e é por isso que tu nos ama. Foi tua infinita bondade que nos deu o mimetismo, que nos coloca acima das outras criaturas, porque este é o supremo dom da criação, e que possamos usá-lo para mostrar aos outros camaleões que tu criaste o universo e tudo o que nele há somente para que possamos nos adaptar a ele.