Pós-graduações IMED 2013

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Contexto das pós-graduações stricto sensu em psicologia no Brasil

Conferindo o status atual dos programas de pós-graduação em psicologia no Brasil, através da lista da CAPES que mostra a avaliação de 2010 (disponível aqui), pode-se observar o cenário da psicologia, que traz alguns elementos interessantes para análise.

A classificação genérica dos programas foi a que mais ocorreu na lista da CAPES de 2010. Dos 61 programas, 33 deles, que corresponde a 54,09%, são designados como em Psicologia. Em segundo lugar, com 9,83% (6 programas) estão os programas em psicologia social e em terceiro lugar, com 8,19% (5 programas), os programas em psicologia clínica. Os demais programas, que somam 27,89% (17 programas), possuem uma definição menos genérica, apresentando de forma mais precisa seu foco de atuação.



Os programas avaliados em 2010, em sua maioria (33, correspondendo a 54,09%) são programas de mestrado e doutorado. Em seguida, há 26 programas (42,62%) somente de mestrado acadêmico, um de mestrado profissionalizante e um somente de doutorado (correspondem, na soma, a 3,27%).



Em relação aos conceitos, a distribuição mostra que 37,70% dos programas (23) possui conceito 4, sendo a maioria das avaliações. Em seguida, estão os programas com conceito 5 (17 programas, correspondendo a 27,87%), e conceito 3 (15 programas, com 24,59%). Somente 4 programas em psicologia avaliados em 2010 (6,56%) possuem conceito 7, alcançando nível internacional.



Sobre a distribuição geográfica, a maior parte dos programas de pós-graduação stricto sensu em psicologia está localizado na região sudeste, com 45,90% (28 programas), seguido pela região nordeste (19,67%, representando 12 programas) e pela região centro-oeste (16,39%, representando 10 programas).



Os programas mais bem avaliados pela CAPES situam-se, da mesma forma, na região sudeste (com 3 programas com conceito 7 e 9 programas com conceito 5) seguido pela região nordeste (com 5 programas com conceito 5). Fora da região sudeste, somente a região sul possui um programa de pós-graduação stricto sensu com conceito 7.



Finalmente, comparando a porcentagem de programas de pós-graduação em engenharia, que pela CAPES é o que possui maior número de avaliações com conceito 7 (15,38%, correspondendo a 18 programas), os programas em psicologia com conceito 7 respondem somente por 5,98% (4 programas), equiparado em número e porcentagem aos programas de pós-graduação em literatura/linguística e geografia.



*Pode haver alguma pequena discrepância neste gráfico, visto que ele sintetiza algumas áreas por proximidade (p. ex., os vários cursos relacionados com a área da agronomia foram reunídos sob o rótulo de Agronomia).

Assim, em comparação com áreas mais tradicionais, a psicologia brasileira ainda carece, e em grande medida, de programas de pós-graduação que tenham qualidade reconhecida internacionalmente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A eficácia dos antidepressivos II

Seguindo os problemas apontados na postagem anterior, que mencionou que antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) não seriam mais eficazes do que placebo, outro tema merece uma atenção cuidadosa pelos profissionais da saúde mental: os antidepressivos não funcionariam como se acredita que funcionam.

O modelo médico vigente de saúde-doença postula que o tratamento deve idealmente reestabelecer o funcionamento prévio do organismo; então, o objetivo da medicação é "normalizar" as funções que não estão equilibradas. Assim, o funcionamento de medicações antidepressivas deve-se ao fato de que a medicação aumentaria os níveis disponíveis de serotonina para os neurônios, facilitando o funcionamento das sinapses. Até aqui tudo bem, a não ser a falta de comprovação de que isto ocorre de fato.

Joanna Moncrieff, da University College London e David Cohen, da Florida International University, discutiram essa questão num artigo onde é proposto que antidepressivos criariam um estado "atípico" no cérebro. Este estado diferenciado é o que produziria os efeitos antidepressivos, de modulação do humor e redução dos sentimentos de tristeza e os outros sintomas da depressão.

O que sustenta esta tese? Os autores argumentam que haveria pouca evidência que sustenta que os antidepressivos reestabelecem os níveis normais de neurotransmissores - pesquisas não mostram, por exemplo, falta de serotonina (um neurotransmissor que seria relacionado à depressão) ou outras monoaminas em pessoas com diagnóstico de depressão. Estudos com animais também apresentam inconsistências, que referem-se especialmente a "o que" seriam os sintomas de depressão nestes animais. Estes argumentos, dentre vários, seriam suficientes para levantar a lebre.

Assim, os autores citados apresentam uma explicação alternativa para o funcionamento de antidepressivos. O modelo padrão é o centrado na doença, que explica que os antidepressivos funcionam porque reestabeleceriam os níveis anormais de neurotransmissores. O alternativo, chamado de "modelo centrado no medicamento", aposta que é a alteração cerebral provocada pelo medicamento o que traria um alívio dos sintomas. Seria mais ou menos como dizer que o álcool seria um bom tratamento para fobia social porque "solta" a pessoa.

Se o modelo centrado na droga se mostrar coerente, muita coisa vai mudar no entendimento e no tratamento dos transtornos mentais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os superpoderosos

Na idade média, os cavaleiros eram considerados os ícones de força e poder físico. Eram os guerreiros que defendiam os territórios feudais e conquistavam outros tantos. Um dos aspectos que lhes conferia esta força era o uso de uma pesada armadura metálica, protegendo dos ataques inimigos, especialmente da espada. Ao mesmo tempo em que a armadura protegia, poderia ser utilizada como arma contra os oponentes. Sentir-se invulnerável é um bom recurso psicológico para aumentar a coragem das pessoas.

Hoje não se usa mais armadura como os cavaleiros medievais. Mas ao que parece, existe uma outra que dá coragem às pessoas. Dá pra pensar, observando o trânsito, que os veículos estão fazendo as vezes destas armaduras. Muitas pessoas parecem se transformar quando estão pilotando um veículo automotor; tornam-se mais ousadas, mais intrépidas, mais destemidas, como se o trânsito fosse uma guerra de todos contra todos. Além de se sentirem protegidas e poderosas, muitas pessoas ficam acima do bem e do mal, e principalmente, acima das leis do trânsito. Dirigir um veículo parece dar uma carta branca, e se pode fazer de tudo: passar sinais fechados, estacionar em faixas de segurança, em fila dupla, na faixa amarela, dispensar o uso de pisca para mudança de direção e, acima de tudo, pilotar em velocidade.

Não quero com esses comentários culpar exclusivamente os motoristas pelas imprudências no trânsito, afinal de contas existem muitos pedestres que também não possuem nenhuma prática segura ao atravessar as ruas e avenidas. Mas existe um ponto que deve ser observado: enquanto qualquer pessoa é pedestre, nem todos os pedestres são motoristas. Para isto, é necessária uma habilitação, ou seja, uma concessão do direito de dirigir. Então, em tese, quem dirige deveria ser mais responsável ainda, afinal de contas demonstrou certa habilidade e deve responder por isso.

Resta compreender por qual razão essa armadura é necessária. Necessitamos nos sentir fortes quando nos percebemos agredidos ou fragilizados por alguma razão. E não faltam, hoje em dia, motivos para estarmos sensíveis: estresse no trabalho, nas relações interpessoais, isso sem falar que o próprio trânsito é fonte de estresse.

Muito se fala que a educação no trânsito deve ser reforçada para modificar nossos comportamentos, e concordo com isso. Mas uma análise sobre nosso comportamento também precisa ser realizada, porque se não combatermos as fontes que nos estressam, o cenário não irá mudar, e a tendência é mesmo piorar. Armaduras são desnecessárias quando estamos, de fato, fortalecidos.

*Artigo publicado no jornal O Nacional, de 25 e 26 de setembro de 2010.
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Texto complementar: Comportamentos no trânsito e causas da agressividade

domingo, 17 de outubro de 2010

A eficácia dos antidepressivos

Um artigo publicado em 2008 na PLoS causou certo tremor na comunidade científica, pois apontou que os antidepressivos da quarta geração, que incluem fluoxetina, venlafaxina, nefazodona, paroxetina, sertralina e citalopram, considerados inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), não teriam efeito superior ao placebo.

O estudo consistiu em uma meta-análise (um estudo sobre dados já publicados) que englobou 35 estudos quase-experimentais analisou parâmetros estatísticos relevantes (como variância, desvio-padrão e diferença entre as médias), abrangendo 3.292 pessoas no grupo-teste (com utilização de um dos medicamentos) e 1.841 no grupo controle (com placebo). O que é especialmente interessante na análise conduzida por Irving Kirsch e equipe foi a fonte dos dados.

A indústria farmacêutica norte-americana deve submeter todo e qualquer estudo realizado ao Food and Drug Administration (FDA), que é o órgão controlador dos medicamentos nos Estados Unidos - mesmo (e principalmente) os estudos que não demonstram eficácia da medicação. Desta forma, estes dados provavelmente possuem pouco ou nenhuma tendência (viés) a aumentar os efeitos das medicações, mas demonstrar os efeitos que realmente foram identificados.

O artigo de Kirsch et al. demonstrou que os participantes dos grupos-teste destes 35 estudos não apresentaram mudanças superiores em relação aos pacientes dos grupos controle, a não ser os pacientes que apresentavam depressão grave. Entretanto, mesmo para estes, Kirsch et al. argumentam que o que houve não foi, efetivamente, um aumento da eficácia dos medicamentos, mas sim uma diminuição do efeito placebo, que cria a ilusão de que os efeitos dos medicamentos foram maiores.

O estudo, bem conduzido do ponto de vista metodológico, aponta para uma valorização do trabalho do psicólogo, visto que se as medicações realmente são pouco eficazes, o que faz a grande diferença no tratamento da depressão é a psicoterapia.

Uma entrevista de Irving Kirsch pode ser lida aqui.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

IV Seminário de Psicologia da IMED - 29/09 a 1/10/2010



*Agradeço aos alunos, especialmente à Gabriele Albuquerque, pela realização e edição deste video.

domingo, 19 de setembro de 2010

Os mecanismos evolutivos

Muitas vezes, quando se considera a história evolutiva dos seres vivos, críticos da evolução argumentam que a vida teria evoluído rápido demais para que tenha sido uma obra das pressões do ambiente. Isso justificaria a existência de um design inteligente, mentor do desenho que os organismos vivos possuem.

Entretanto, a evolução é muito mais complexa do que se pode imaginar. É bastante comum que os biólogos analisem, especialmente, as pressões seletivas do ambiente que geram uma pequena vantagem reprodutiva como um principais mecanismos de especiação. Contudo, a vida é um fenômeno complexo, e é necessário também considerar a importante influência de fatores abióticos como causas de mutações.

O planeta é protegido por uma camada magnética chamada de magnetosfera. Ela é o produto do fluxo de elementos magnéticos no centro da Terra, produzido pelo movimento de rotação. Graças a ela é possível existir a vida como conhecemos, pois impede que grande parte do vento solar invada o planeta; é um escudo contra a força do Sol. Este escudo, entretanto, não é imutável, pois periodicamente sobre mudanças de polaridade, o que acaba modificando sua capacidade protetora. Aumentos de radiação devidos à baixa da proteção da magnetosfera podem ter efeitos sobre os genes.

Da mesma forma, erupções de supervulcões, que ocorrem periodicamente no planeta, também podem ter baixado as defesas do planeta e permitido a ação de agentes mutagênicos. Existem dezenas de supervulcões distribuídos ao longo da crosta terreste, e uma erupção pode deixar uma camada de vários centímetros de poeira por centenas de quilômetros quadrados. É estimado que uma destas erupções, há cerca de 2 milhões de anos, tenha feito isso por mais da metade do território que hoje compreende os Estados Unidos. Além dos efeitos sobre o solo, os gases expelidos por estas erupções danificam a camada de ozônio, aumentando os níveis de radiação ultravioleta, que também tem efeitos mutagênicos.

Quando pensamos a evolução, não é suficiente nos determos apenas nos efeitos da competição pela sobrevivência resumido à luta entre as espécies. A complexidade de fatores implicados é muito grande, mas, mesmo assim, não parece ser necessária a intervenção de um designer para criar a vida.

sábado, 18 de setembro de 2010

O preconceito inconsciente

Todos os dias temos constantemente provas de que nosso comportamento possui raízes irracionais, apesar de nossa racionalidade. Os estudos de Mahzarin Banaji, psicóloga social e professora do departamento de psicologia da Harvard University, têm demonstrado que os preconceitos que temos possuem raízes que desconhecemos.

Estudos com o teste de associação implícia (IAT, em inglês) têm demonstrado que as pessoas, até mesmo as crianças, possuem uma tendência a avaliar de maneira mais favorável pessoas parecidas com elas mesmas, e de forma menos favorável, pessoas diferentes. Isso não significa dizer que temos preconceitos de algum tipo pré-formatados desde a infância, mas sim que temos uma tendência a julgar favoravelmente o que se parece mais conosco. À medida em que vamos crescendo, aquilo que é considerado diferente vai se cristalizando, graças principalmente à ação do meio social. Nesse aspecto, a família possui uma força importante para a constituição sobre o que é ou não diferente.

Compreender estes fenômenos pode nos auxiliar a entender de que forma organizamos o mundo, especialmente entre o que consideramos aceitável ou inaceitável. São evidentes as aplicações destes estudos por exemplo na diminuição dos comportamentos de bullying entre as crianças e adolescentes.

Uma das principais formas existentes para diminuir o preconceito, segundo Banaji, é a experiência. Quanto mais temos contato e vivenciamos o que é diferente, mais o preconceito tende a diminuir.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Docência na Educação Superior IMED

Últimos dias para inscrições!

domingo, 29 de agosto de 2010

A Estante da Ciência

*Este artigo foi publicado no jornal O Nacional, de Passo Fundo, em 17 e 18 de Janeiro de 2009. Resolvi postar no blog porque as coisas continuam iguais...

Se aquilo que uma sociedade lê reflete o que ela é, podemos concluir que a ciência é algo que não está muito no gosto dos leitores brasileiros. Em visita costumeira a algumas grandes livrarias de Porto Alegre, observei a disposição das estantes e a quantidade de títulos mostra algo curioso: além da literatura ficcional e não-ficcional, há uma grande oferta de livros de auto-ajuda. Nenhuma novidade, qualquer um pode constatar. O interessante é que estes livros estão expostos de forma que o público que entra na livraria os visualiza com facilidade e rapidez. Os livros científicos, e me refiro especialmente os de divulgação científica, que exigem do leitor um conhecimento apenas mínimo de ciência, por sua vez estão quase ausentes. Se você quiser livros de divulgação científica, vai ter que procurar. Quando encontrar, vai observar que ocupam um espaço muito pequeno em relação ao espaço da livraria como um todo (chuto por alto 1% sendo bem generoso) e, além disso, com poucos exemplares, poucos títulos e pouca visibilidade.

Esse contraste é curioso. Por que a auto-ajuda vende mais do que a ciência? Por várias razões. As pessoas possuem necessidades emocionais prementes que os livros de auto-ajuda prometem resolver com rapidez e eficiência; e realmente são muito rápidos. Você termina de ler o livro e já esquece. Numa sociedade onde as pessoas não têm mais o conforto de alguém que lhes diga como se comportar, títulos diversos de auto-ajuda dão uma referência de comportamento, mesmo que momentânea. Os livros de auto-ajuda são escritos numa linguagem muito acessível, o que facilita a leitura, além de terem letras agradáveis e não serem volumosos. E não exigem que o leitor pense muito: você joga meia-dúzia de fatos da vida, mais uma pitada de senso-comum, uma dose de "veja como você não consegue ver coisas óbvias em sua vida" e um toque final de "faça assim que você vai se dar bem" e a fórmula não tem erro. É batata. Além disso, constroem uma falsa sensação de que você descobriu as coisas que estão dando errado em sua vida e que possui o poder de mudá-las pela "força do pensamento", sentimento que dura até você começar a ler o próximo título que diz basicamente a mesma coisa.

E a pobre ciência... milhões de reais são investidos anualmente na busca de soluções científicas para os problemas humanos, e o que acontece com ela? Fica alheia à vida real, aos problemas reais, acessível a uns poucos iniciados que entendem a linguagem da matemática e ficam fuçando nas coisas até descobrir como elas funcionam. A ciência é vista como algo complicado, chato, difícil de entender, e é claro que ela vai continuar sendo assim, afinal nosso sistema educacional, por falta total de vontade política, não tem interesse que os alunos saiam pensando pelas suas próprias cabeças. Para você que fez o ensino médio, uma pergunta: quantos experimentos de química, por exemplo, você fez? Quantos você viu? E não vale a desculpa de que para fazer experimentos é necessário estrutura, equipamentos... Você sabia que com um pedaço de zinco, outro de cobre e um limão pode-se gerar eletricidade? Possivelmente não; talvez isso se deva ao fato de o limão estar muito caro no mercado. Essa é a melhor fórmula para deixar as pessoas alheias ao conhecimento: dar a ilusão de que sabem algo que na verdade não sabem. Fica bem para todo mundo assim, né?

Quando for numa livraria, se você tiver esse hábito, dê uma passada na seção de divulgação científica. Veja os títulos. Tenho certeza de que algo vai chamar sua atenção. E será algo que vai durar na sua vida muito mais tempo do que um exemplar de auto-ajuda.

domingo, 1 de agosto de 2010

Por que mudar é difícil?

Uma das coisas mais complexas que existem é a mudança duradoura de comportamento. Observamos todos os dias as pessoas, e nós mesmos, dizendo que tal comportamento não nos faz bem e que vamos mudá-lo. Contudo, nem sempre isso acontece de maneira fácil, nem rápida, e é bastante comum que continuemos, após certo tempo, mantendo o mesmo padrão de comportamento. Uma das causas que parece manter a estabilidade do comportamento é o aumento de ansiedade que essa mudança gera.

Por mais que racionalmente compreendamos que tal mudança será benéfica para nós, existe um empecilho: mudar de comportamento significa, primeiramente, analisar o comportamento atual. Aqui começa o problema, pois ao fazer isso, nos damos conta de que muitas coisas importantes que acreditamos na verdade não existem, e isso aumenta o nível de ansiedade. Durante o processo evolutivo, a redução da ansiedade foi um mecanismo importante que colaborou para a manutenção da vida, porque ansiedade em intensidade elevada e/ou por tempo prolongado causa danos ao organismo. Sempre que temos elevados nossos níveis de ansiedade, disparamos mecanismos que tentam reduzir-la, e um dos primeiros movimentos que ocorrem é a tentativa de remoção do estímulo aversivo. Em outras palavras, se começar a pensar sobre nosso comportamento é algo que aumenta a ansiedade, a forma mais fácil de reduzir esta ansiedade é simplesmente parar de pensar.

Vamos imaginar, por exemplo, uma situação de conflito onde a mudança de comportamento seria benéfica: um filho adulto em conflito com a mãe, cuja fonte de atrito é o desejo por parte da mãe de ter o filho mais perto em termos afetivos contra o desejo do filho em ter mais autonomia. Quando este conflito surge, desperta sentimentos de raiva, ansiedade e desconforto em ambos. Na discussão, cada um demonstrará ter razão, pelo seu ponto de vista (a mãe sente falta do apoio emocional do filho; o filho sente-se pressionado e com sua liberdade ameaçada). Ao fim da briga, ora um cede, ora outro cede: o filho aproxima-se da mãe novamente, em termos afetivos, e a mãe, por sua vez, dá um pouco de espaço para o filho, por algum tempo. Desta forma, a ansiedade é aumentada, num primeiro momento, e depois reduzida a níveis suportáveis para ambos. Entretanto, outras brigas virão, porque a fonte que está provocando a ansiedade não foi tocada.

Mas o que aconteceria se um destes dois protagonistas começasse a pensar na relação que tem com o outro, sobre seus comportamentos, sentimentos e as consequências disso? Vamos supor que a mãe começa a pensar sobre a criação do seu filho, em como se dedicou a ele e como ele está sendo ingrato ao não corresponder aos sentimentos dela. Isso certamente vai despertar os sentimentos de ansiedade, que pode desencadear a briga, pelo pressuposto: "Aproxime-se de mim, me dediquei a você e agora estou me sentindo mal porque não sinto que você corresponde a tudo o que fiz". Se, ao invés de iniciar a briga, a mãe continuasse pensando sobre as causas de seu desconforto e quais as consequências que isso gera para todos, poderia se dar conta que se dedicou de forma intensa para o filho porque, na verdade, estava se sentindo desvalorizada em outras áreas, como por exemplo, na relação com seu companheiro ou com a sua família de origem. É bem provável que esse tipo de pensamento iria gerar muito mais ansiedade, aumentando o sofrimento já experimentado no presente pela briga.

Por parte do filho, se ele também observasse que a ansiedade que está sentindo quando briga com sua mãe está sendo alimentada, muitas vezes, por comportamentos do passado, teria, assim como ela, aumentado o seu nível de ansiedade. Então, ainda gera menos sofrimento toda a ansiedade produzida pela briga atual do que "mexer" nas coisas que aconteceram no passado e que estão alimentando os conflitos do presente: quando a briga termina, a ansiedade baixou, mas ninguém pensou em tocar na fonte dos problemas. Ou se pensou, não foi forte o suficiente a ponto de mudar seu comportamento de forma significativa.

Então, o que dificulta muito a mudança do comportamento não é falta de capacidade de pensar sobre nossos problemas, mas sim uma espécie de "armadilha" emocional que visa a preservação do funcionamento do sistema nervoso - a evitação dos sentimentos de ansiedade. Sempre que pensar sobre algo gera ansiedade, a primeira reação será combater este pensamento. Como isso geralmente dá certo, podemos compreender então porque é tão comum que as pessoas pensem pouco sobre seus próprios comportamentos e tenham tanta dificuldade de mudá-los. Entretanto, pensar sobre o comportamento e efetuar as mudanças, mesmo que doloroso, tende a trazer a longo prazo mais benefícios, pois os conflitos já compreendidos e trabalhados tendem a exigir menos do sistema nervoso, disparando menos os mecanismos de ansiedade e aumentando a qualidade de vida.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cuidado com a depressão

Dentre os transtornos mentais mais comentados nos últimos anos está a depressão. Arrisco a dizer que não há um telenoticiário, um jornal ou estação de rádio que não tenha veiculado alguma notícia sobre este transtorno, o que reflete a popularidade deste tema.

Entretanto, por paradoxal que pareça, muito se fala em depressão mas pouco se conhece sobre ela em detalhes. Para começar, é fundamental diferenciar a depressão da tristeza. Muitas pessoas dizem que estão com depressão ao menor sinal de tristeza, o que não é correto. A depressão consiste em um conjunto de sintomas, como insônia ou hipersonia, perda ou amento de apetite e tristeza. Mas não qualquer tristeza; precisa ser constante, intensa e estar além do sentimento de controle da pessoa. Aí já podemos pensar na possibilidade de uma depressão. A tristeza é um sentimento momentâneo, mas o principal elemento de diferenciação é a tristeza passa, e a pessoa volta ao humor habitual. A depressão persiste.

Outro ponto, mais técnico, diz respeito ao diagnóstico de depressão. Temos observado que parece ser comum o diagnóstico de depressão, mesmo por profissionais não especialistas. Acreditamos que fazer isto é arriscado, pois como dissemos acima, nem toda tristeza referida pelo paciente é um diagnóstico de depressão. Isso ocorre porque há vários outros diagnósticos que apresentam sintomas depressivos, gerando um equívoco. Por exemplo, no transtorno de personalidade borderline, há crises de depressão; se estas forem observadas isoladamente, sem levar em conta o histórico de comportamento e sintomas do paciente, o diagnóstico seria de depressão, mas o paciente tem algo que pode ser mais grave e persistente, e obviamente vai exigir uma série de intervenções bem diferenciadas do que se fosse somente depressão, e por um período de tempo mais prolongado. Sadock & Sadock (2007, p. 580) referem que de 25% a 50% dos pacientes diagnosticados inicialmente com depressão tiveram posteriormente seus diagnósticos refeitos para outras condições psiquiátricas, o que mostra o tamanho do cuidado que se deve tomar no diagnóstico de depressão.

Portanto, na presença de sintomas de depressão, busque um bom especialista na área.

Referência bibliográfica

SADOCK, Benjamim J.; SADOCK, Virginia A. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 9 ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A unidade do cérebro

O estudo do cérebro humano revela coisas surpreendentes. Conforme vamos investigando a estrutura e funcionamento deste complexo órgão, percebemos que nossos esforços para separar e classificar nosso comportamento em categorias distintas (como por exemplo pensamento, afeto e sensação) é bastante arbitrário e mesmo artificial.

Podemos começar essa análise discutindo funções básicas como o controle do sono e da fome com outras consideradas "superiores" como por exemplo os afetos e o pensamento. O hipotálamo é considerado um dos principais centros de controle do sono e da fome, que é efetuada através de seus núcleos (os núcleos do hipotálamo são compostos por corpos neuronais agrupados), e está localizado nas paredes do terceiro ventrículo, no "centro" do cérebro. Lesões ou alterações nos neurônios destes grupos, causados por traumas ou tumores, podem provocar fenômenos interessantes, como por exemplo aumento ou extinção do sentimento de fome e a eliminação do controle do sono, deixando uma pessoa indefinidamente consciente.

Além destas funções corporais, os neurônios dos núcleos hipotalâmicos também controlam a regulação de emoções. Intimamente em sintonia com outros centros de controle, como o sistema reticular ativador ascendente (SRAA), o hipotálamo ajuda na modulação de nosso humor, gerando estados de tranquilidade, paz e ansiedade face a um perigo. Alterações no funcionamento das vias do SRAA provocam efeitos sobre o comportamento como um todo, causando ao mesmo tempo variações de humor, perda ou aumento da necessidade de sono, dificuldades de raciocínio e alterações em nossa disposição.

E estes são sintomas clássicos de depressão. Quando alguém toma um antidepressivo, a medicação age diretamente nos centros do hipotálamo e outras regiões do cérebro, produzindo um efeito amplo que melhora o humor, o sono e a disposição. Isto ocorre porque os grupos de neurônios que regulam o sono, a fome e a energia ou são os mesmos ou estão intimamente relacionados.

Portanto, mesmo que na nossa vida prática nós tentemos separar as funções mentais, chamando-as de "afeto", "pensamento" ou "consciência", do ponto de vista neurológico estas distinções não parecem fazer muito sentido. Se a evolução produziu neurônios capazes de regular funções mentais tão distintas, pode-se observar que é de praxe na natureza a utilização de estruturas que possuem uma finalidade específica em usos diferentes.

Visto deste ângulo, faz muito sentido pensar que o comportamento humano é, de fato, uma unidade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

10:23

Foi amplamente divulgada pela mídia uma campanha promovida por uma organização que questionava os efeitos de preparados homeopáticos. Os manifestantes ingeriram uma grande quantidade destes preparados, pois a principal crítica contra a homeopatia é que ela, devido às ultradiluições, não teria efeito superior à ingestão de placebo. O resultado da campanha, após uma semana, foi que não houve nenhum efeito observável, nem sequer intoxicação, entre as centenas de pessoas que participaram ao redor do mundo.

Pesquisas à parte, que indicam que a homeopatia não tem em média eficácia superior ao uso de placebo, este movimento parece ter demonstrado de maneira definitiva que os preparados homeopáticos não possuem os efeitos que seus defensores postulam. Entretanto, este tipo de tratamento continua sendo bastante procurado por pacientes, com o argumento de ser natural e menos nocivo do que o tratamento alopático.

Mas o que é a homeopatia? Ela é uma especialização da medicina, e baseia-se em princípios diferentes dos postulados pela medicina tradicional. Um destes princípios é que o semelhante cura o semelhante, ou seja, quando algum tipo de preparado homeopático é capaz de produzir os mesmos sintomas que uma doença, este preparado seria eficaz no tratamento desta patologia. O outro princípio central da homeopatia diz respeito à maneira como os preparados são feitos: quanto mais se diluir uma substância, através das chamadas dinamizações, mais efeito surtiria.

Assim, diversas (ou pode-se supor que qualquer) substâncias poderiam ser consideradas para um preparado homeopático. Na farmacopéia homeopática brasileira, encontra-se uma listagem destas substâncias como possíveis tratamentos de patologia, como por exemplo ácido sulfúrico, cobre metálico, escarro, fezes, pêlos, pus ou raspado de pele ou de unhas (somente para ficar com alguns). A lista pode ser conferida aqui, caso o leitor deseje mais informações.

Existe um outro dado interessante sobre a vida de Hahnemann que é pouco divulgado. Além de aplicar os preparados homeopáticos em si mesmo e em sua família, ele havia contraído malária, também conhecida como febre palustre. As auto-aplicações de Hahnemann foram utilizadas, e ainda o são, como parâmetro para o tratamento de diversas doenças. Mas se ele próprio se aplicava as medicações que produzia, e dizia que elas produziam os sintomas das doenças que supostamente tratavam, temos que refletir se as febres que ele sentia (e febre é sintoma de uma quantidade substancial de patologias) eram realmente devidas à malária ou ao uso de seus preparados. Portanto, é mais provável que os sintomas que ele tinha fossem devidos à malária, que é uma doença provocada por um protozoário e que tem em sua sintomatologia períodos febris e não-febris que podem durar horas ou dias.

Não bastasse isso, existe o problema das ultradiluições. Uma diluição consiste, por exemplo, em pingar uma gota de uma substância qualquer em um veículo, que pode ser água ou álcool, e "dinamizada", ou seja, batida várias vezes para que este veículo adquira as "propriedades dinâmicas" do composto. Mas isso é somente a primeira diluição. Em seguida, pega-se uma gota desta primeira diluição e coloca-se em outro recipiente, com o mesmo volume, e repete-se o processo. Várias vezes: 10, 20, 50, 100, 200, 500 vezes. Quanto maior o número de diluições, mais eficaz seria o preparado. Mesmo os homeopatas dizem que, após um certo número de diluições, não haveria mais presença da substância original da primeira diluição. O que resta é o conteúdo dinamizado, ou seja, uma espécie de "energia" que ficaria presente na solução, e que então teria os efeitos desejados.

A ultradiluição tem uma história interessante. Na época de Hahnemann, utilizavam-se compostos altamente tóxicos, como o arsênico. Como o objetivo do tratamento era curar o paciente, não matá-lo, havia um equilíbrio delicado entre medicar e envenenar. Se fosse encontrada uma forma de utilizar os efeitos terapêuticos da substância sem seus efeitos colaterais, ter-se-ia uma medicação que curaria o paciente. Portanto, as ultradiluições visariam tentar passar para a solução somente os efeitos terapêuticos, sem os efeitos tóxicos. O que não se pensou é que, ao eliminar a substância, também seriam eliminados os seus efeitos. James Randi neste vídeo dá mais detalhes sobre a forma de produção dos preparados homeopáticos.

É importante que as pessoas saibam do que se trata a homeopatia, porque isso pode ser uma questão importante de saúde. Este tipo de atendimento não possui os efeitos que diz ter, e mesmo pode levar a consequências desastrosas, como a morte pelo atendimento inadequado. Recentemente uma menina morreu por ter sido tratada com homeopatia, o que levou à condenação dos pais por homicídio.

Pense nisso quando o que está em jogo é a sua saúde.