Pós-graduações IMED 2013

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A ponte frágil

A física é considerada por grande parte dos cientistas como a ciência magna. Seus postulados são considerados como a pedra fundamental do conhecimento do mundo, e várias ciências importam esses saberes para compreender melhor seus objetos específicos de estudo.

Com as ciências humanas, ocorre situação semelhante. Pode-se observar que muitos conceitos da física são transpostos para o estudo do comportamento, da sociedade, da economia, mas é relevante nos questionarmos sobre como é feita esta transposição. Entendemos haver certa inconsistência neste movimento, pois há alguns problemas que nem sempre são adequadamente considerados.

O primeiro deles é a carência de conhecimento dos postulados da física por cientistas humanos. Via de regra, o cientista humano é especialista em determinada área do saber, sendo conhecedor desta com maior ou menor profundidade (e não podia ser de outra forma). Entretanto, como especialista nas ciências humanas, é importante considerar se possui os conhecimentos básicos de física que são necessários para realizar a transposição das idéias deste campo para o campo humano. Se ponderarmos que muito do conhecimento científico do cientista humano está vinculado ao conhecimento obtido no ensino médio ou de leituras de segunda mão da física, esse problema assume relevância.

Segundo, a diferença do objeto investigado exige que a transposição de conhecimentos seja realizada com prudência. Se na física quântica o objeto investigado é a partícula, nas ciências humanas não é. Portanto, pode-se pensar que o raciocínio pode ser forçado ao se querer aplicar as mesmas explicações que servem bem para um fóton para outro contexto e objeto, que é o comportamento humano.

Terceiro, os comportamentos humanos são efetuados por pessoas que são compostas de matéria, mas que não estão diretamente sujeitas aos fenômenos da física quântica. Ludwig Boltzmann (1844-1906) já asseverou em seus estudos de termodinâmica que a matéria se comporta de acordo com a estatística: as propriedades que vemos (extensão, volume, etc.) dependem da grande quantidade de moléculas que estão unidas e se comportam em conjunto. Não se pode considerar que a física do nosso dia-a-dia seja a mesma que a física quântica, porque não é; mas isso não significa que ela é melhor. Só é diferente.

Finalmente, muitos cientistas humanos parecem afirmar que a física quântica se aplicaria melhor do que a física clássica para explicar o comportamento. A física clássica é determinista e impessoal, enquanto que a quântica afirma que o observador interfere no fenômeno. Sim, isto ocorre. Mas podemos utilizar um princípio de semelhança como explicação? é legítimo afirmar que só porque um fenômeno ocorre no muito pequeno assim como ocorre no grande que tudo o mais também passa a valer? Só porque duas coisas são parecidas não quer dizer que estejam relacionadas ou que sejam explicadas pelo mesmo princípio. Além disso, a física, mesmo a quântica, não abre mão da tentativa de prever o comportamento das partículas, ou seja, ela possui um caráter de previsão, ao contrário do que os cientistas humanos gostam de afirmar (não é possível prever o comportamento).

Por óbvio que os conhecimentos produzidos nas demais ciências podem servir como inspiração para a pesquisa em outras áreas. Só não se pode assumir levianamente o que não se conhece, pois desta forma não se estará fazendo ciência de forma séria.

4 comentários:

Anônimo disse...

Ola Vini, muito legal o seu texto "A ponte frágil".
Demorei alguns minutos para entender a expressão"cientista humano" .
Percebi depois que é o cientista que é um especialista nas ciências humanas.

Sua percepção deste assunto é igual a minha.

Há alguns anos atrás eu li um artigo sobre dois Físicos que, cansados de ver a Física ser usada para explicar o comprotamento humano de forma leviana, aplicaram um trote em uma respeitada revista americana da área de humanas. Foi mais ou menos assim: eles fizeram um artigo caprichado onde inventaram informações de comportamento humano. Depois, no texto do artigo, eles justificaram os resultados considerando aspectos da Física. Era muito bizarro e simplório, mas o artigo foi publicado e eles espalharam o artigo na comunidade de Físicos do mundo todo, expondo o ridículo da revista.

Eu não chegaria a tanto.

Bem, parabéns pelo blog vou olhar com frequência.
Um abraço,
Eduardo Spalding

g a b r i e l e disse...

Texto muito bom, como já era de se esperar deste blog hehehe
E vou aproveitar pra deixar o lembrete... Queremos um texto seu no Rodinho, hein!

Mauro Gaglietti disse...

Oi, Vinicius:

muito interessante a sua formulação abrindo pontos para um bom debate. No momento, compartilho com as formulações propostas por JUNG e, mais recentemente, pelo físico CAPRA, autores com os quais seu texto mantém um diálogo. Penso que esses autores fazem uma ponte bem interessante para analisar a saúde como um fenômeno multidimensional, que envolve aspectos físicos, psicológicos e sociais, todos interdependetes. A representação comu de saúde e doença como extremos opostos de algo contínuo e unidimensional é muito enganadora. A doença física pode ser contrabalançada por uma atitude mental positiva e por um apoio social, de modo que o estado global seja de bem-estar. Por outro lado, problemas emocionais ou o isolamento social podem fazer uma pessoa sentir-se doente, apesar de seu bom estado físico. Essas múltiplas dimensões da saúde afeta-se mutuamente, de um modo geral; a sensação de estar saudável ocorre quando tais dimensões estão bem equilibradas e integradas. A experiência de doença, do ponto de vista sistêmico, resulta de modelos de desordem qeu podem se manifestar em vários níveis de organismo, asssim como nas várias interações entre o organismo e os sistemas mais vastos em que ele está inserido. Assim, Vinicius creio - concordando com JUNG, CAPRA, EDGAR MORIN, MATURANA, VARELA - captaram que há uma inteligência no cosmos e os seres humanos deveriam, na medida do possível, aperfeiçoar suas instituições à altura dessa inteligência presente na matéria. Concluindo: o que não é saudável para o indivíduo tampouco é saudável, geralmente, para a sociedade e para o ecossistema global. Um fraterno abraço ao autor de tão belo texto, provocativo à reflexão,
até breve
Prof.Mauro Gaglietti

g a b r i e l e disse...

Uia, o visual do blog tá mais charmoso agora! Hehehehe
Mas continue colocando mais textos p'sor :D