Pós-graduações IMED 2013

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

A importância da psicologia

Todos nós, intuitivamente, avaliamos o comportamento. Quando estamos no trabalho e observamos se nosso colega trabalha mais ou menos do que nós, quando estamos na calçada e cuidamos se as pessoas olham para os dois lados antes de atravessar a rua ou quando damos uma reprimenda ao filho porque ele não tem se comportado bem, estamos na verdade determinando o nosso comportamento a partir de uma avaliação do comportamento do outro. Assim, as pessoas se avaliam de forma livre, utilizando o aprendizado que tiveram durante suas vidas. Chamamos a isso de senso comum, que é uma forma básica e natural de avaliar o comportamento.

Fonte: UFMS

Um psicólogo tem por ofício avaliar, compreender e intervir no comportamento, mas para isso não utiliza o senso comum, e sim os métodos da ciência. A psicologia nasceu oficialmente em 1879, na Alemanha, na Universidade de Leipzig com a abertura do primeiro laboratório de psicologia experimental, por Wilhelm Wundt. Na época, houve uma grande preocupação em fazer com que o estudo do comportamento tivesse uma base científica, e isso acabou separando o estudo do comportamento (a psicologia) da área-mãe, que era a filosofia. Mesmo que hoje o diálogo entre filosofia e psicologia continue fundamental, cada uma seguiu seu rumo.

Desde aí, muitos estudiosos contribuíram significativamente para a compreensão do comportamento. Sigmund Freud propôs que nossos comportamentos não são totalmente controlados pela vontade, abrindo um vasto terreno de investigação. Carl Rogers propôs que o ser humano tem bons potenciais para o crescimento, e o ambiente pode nos ajudar ou criar barreiras para o crescimento saudável. E assim a psicologia foi amadurecendo.

Nos Estados Unidos, no início do século XX, John Watson propôs que apenas uma análise científica do comportamento poderia ser confiável. Não basta apenas utilizar a intuição e opiniões; a ciência seria a ferramenta central que daria o conhecimento que precisamos para compreender o ser humano. Desta forma, Watson reafirma as ideias de Wundt e fortalece as bases para o surgimento do estudo científico do comportamento. B. F. Skinner foi um dos principais pilares da psicologia científica, e propôs estratégias eficazes para a compreensão e a modificação do comportamento. Suas ideias foram amplamente aceitas e utilizadas. No campo educacional, por exemplo, seus princípios de educação autodirigida formaram as bases para o aprendizado mediado por computador e o que hoje conhecemos por educação à distância (EaD). Pode-se dizer que hoje a educação tem muito a ganhar ao continuar utilizando as ideias de Skinner.

Hoje a psicologia contribui para melhorar os relacionamentos humanos e aumentar a qualidade de vida. A ciência psicológica atua no tratamento de transtornos mentais, como os transtornos de ansiedade e os transtornos de humor. Cria todos os dias novas ferramentas de avaliação do comportamento. Está presente no sistema educacional, auxiliando a gerenciar conflitos e melhorando o potencial de aprendizado de nossos filhos. Está nos hospitais e consultórios odontológicos, aprimorando o relacionamento entre a equipe e o paciente e promovendo a saúde. Está nas empresas, melhorando as relações e buscando promover a qualidade de vida no trabalho. Está no fórum e nos presídios, auxiliando os operadores do direito a compreender a complexidade do comportamento humano, e ajuda o arquiteto a construir espaços que sejam funcionais, agradáveis e ao gosto do cliente. A psicologia está em toda atividade humana.

É inegável a importância e a amplitude que a psicologia possui. A sociedade a cada dia está reconhecendo mais a necessidade de compreender o comportamento de forma científica e confiável. Essa é a proposta e a importância da psicologia para todos nós, e ela só deixará de ser importante quando não houver mais seres humanos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A liberdade da ciência


Sempre se discutiu e preconizou que a ciência é um empreendimento aberto a críticas e evolui a partir das próprias falhas. Esse foi e deve ser o princípio que a rege, pois se for diferente, ela passa a ser outro tipo de conhecimento, que não ciência. Esse é, com certeza, a força que possui: submeter as boas (e até mesmo más) ideias aos pares. A crítica das idéias é o seu motor.




Para que estas ideias sejam veiculadas, os principais mecanismos de divulgação são os periódicos científicos. Neles, os próprios pares - os cientistas - são os agentes que avaliam se o que está escrito nos artigos foi adequadamente redigido, se o método aplicado está em harmonia com os cânones da ciência e se os resultados conseguem efetivamente confirmar o que já se sabe ou se há a inclusão de algo diferenciado. Após isso, há a indicação ou não de publicação do artigo.

Na maioria dos bons periódicos esta avaliação é feita às cegas, ou seja, quem recebe o artigo encaminhado não sabe quem o escreveu. Assim, haveria uma avaliação mais segura, visto que eventuais influências políticas seriam evitadas, por um processo chamado de avaliação cega por pares (blind peer review).

Mas é interessante observar que, se o processo blind peer review é confiável, algumas políticas editoriais podem ser plenamente questionáveis. Recentemente enviei um artigo para uma revista muito bem qualificada, com assunto totalmente compatível com a proposta temática do periódico e com método adequado. Entretanto, para minha surpresa, recebi uma resposta rápida (o que também não é muito comum em periódicos bastante visados) e amarga: o artigo simplesmente não foi aceito, com pelo menos duas justificativas questionáveis - uma delas dizia que a "relevância" não estava de acordo com os critérios da revista, e a outra dizia que, em virtude do "grande volume" de submissões, muito maior do que podem publicar, ele não passou na pré-avaliação.

Não teria nenhum problema em aceitar um não por uma má qualidade do artigo, ou por ter resultados discutíveis, ou mesmo por outros fatores. Mas isso sequer aconteceu. Não tenho uma visão ingênua e romântica de que não há influências nos processos de seleção de artigos, tanto que aconteceu neste caso como acontece em tantos outros. O que acho deplorável é que há critérios obscuros que interferem na produção da ciência, às vezes com a conivência e aceitação dos próprios cientistas. Reservas de mercado em publicações e outros fatores devem ser combatidos e denunciados. Infelizmente não possuo nenhuma prova cabal disto, e penso que ninguém possua. Mas peço aos editores de periódicos científicos um sério exame de consciência, para que não se priorizem elementos não científicos na seleção. Dar uma oportunidade igualitária a todos deve ser característica da boa ciência e dos bons periódicos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A psicologia não é a ciência da alma

Uma das primeiras coisas que um estudante de psicologia discute na faculdade é a definição de sua futura área de atuação. No primeiro semestre, as disciplinas apresentam um histórico de como a psicologia foi se constituindo, e constata-se que, em seus primórdios, ela era definida como o estudo (logos) da alma ou espírito (psiqué).


De acordo com o professor William Gomes, do instituto de psicologia da UFRGS, o termo apareceu inicialmente como título de um livro publicado em 1590 por Rudolf Goclenius. Na obra, a definição de psicologia refere-se ao estudo da alma, psique ou da mente. A partir daí, o termo começou a se popularizar gradativamente, e em 1879, quando a psicologia como ciência nasce se separando da filosofia, com a criação do laboratório de psicologia por Wilhelm Wund na universidade de Leipzig na Alemanha, ela torna-se a ciência da mente e do comportamento.

Mas é interessante observar que no imaginário das pessoas, e até mesmo de profissionais da área da saúde, persiste a definição da psicologia como o estudo da alma, e vez por outra o encontramos em artigos e entrevistas. Esta conceituação não é a mais adequada, por várias razões. Primeiramente, quando se fala em alma remete-se, em maior ou menor grau, à crença na existência de algo "imaterial", da qual não se tem comprovada cientificamente a existência. Desta forma, como se pode estudar cientificamente algo que não se pode identificar com clareza, nem manipular de alguma forma? Em segundo lugar, existe uma conotação místico/religiosa quando se fala em alma, pois se pressupõe a existência de algo que persiste à vida do corpo. Assim, seria impossível que ateus, agnósticos ou outros que negassem a existência de algo além do corpo pudessem ser psicólogos, pois ou seriam psicólogos, admitindo essa entidade que controla o comportamento, ou não poderiam ser ateus ou agnósticos.

Atualmente, o corpo científico oficial reconhece que o cérebro é responsável pelo controle e manifestação do comportamento. Existe uma base biológica que permite que possamos nos lembrar, pensar, prestar atenção ao mundo, nos relacionarmos com os outros e amar. E essa base, o cérebro, pode ser manipulada e controlada de várias formas, sem que seja necessário considerar a existência de algo supramaterial. Isso não quer dizer que a psicologia é contra as crenças das pessoas; crer em algo pode ser um bom elemento de prevenção de sofrimento mental. Quer dizer somente que é fundamental deixar demarcadas as fronteiras entre as crenças religiosas e espirituais e a ciência. Só assim será possível fazer boa ciência e deixar que as pessoas mantenham as suas crenças, sem conflitos diretos com o conhecimento científico.

Afinal, nunca é demais dizer, religião e ciência são coisas diferentes, tratam de problemas diferentes; se a religião diz como as pessoas devem se comportar para encontrar a paz ou a salvação, a ciência se ocupa de compreender como o mundo funciona. Por estas razões, é mais acertado dizer que a psicologia é a ciência do comportamento, ou da mente, e não o estudo da alma. Ao fazer isso, mantemos cada coisa em seu lugar.

*Publicado no jornal O Nacional, de 16 e 17 de fevereiro de 2013.

domingo, 20 de novembro de 2011

BOINC: computação pela ciência

Seu computador pode auxiliar na solução de vários problemas que afligem a humanidade. Quando ele estiver ocioso, é possível ser utilizado para processar informações obtidas em vários centros de pesquisa distribuídos pelo mundo.

BOINC é um programa que utiliza o tempo inativo do seu computador à ciência, a projetos como a busca pela cura da malária, SETI@home (busca de vida extraterrestre), Climateprediction.net, Rosetta@home, World Community Grid e muitos outros.

Depois de instalar o BOINC no seu computador, pode conectá-lo a tantos projetos quantos quiser.

Para conhecer mais e baixar o programa, o link é http://boinc.berkeley.edu/download.php
Colabore!

domingo, 1 de maio de 2011

Qualidade da produção brasileira em ciências humanas e sociais

O editorial da Revista de Administração de Empresas desenvolve um tema que já abordamos na postagem Contexto das pós-graduações stricto sensu em psicologia no Brasil, e que merece a atenção dos pesquisadores brasileiros.

Segundo o editorial, embora a produção científica brasileira tenha aumentado, obviamente isso não ocorreu de forma equilibrada. Há uma produção significativa nas áreas biotecnológicas, enquanto que as ciências humanas estão mais atrasadas, especialmente ciências sociais, economia e negócios. Essa tendência está de acordo com nossa análise, já mencionada acima.

Além disso, a qualidade das publicações nas áreas humanas necessita ser aprimorada. Isso pode ser avaliado pelo índice de impacto das publicações. A boa notícia é que, mesmo que em volume a produção em psicologia não tenha crescido tanto, em impacto já está melhor.

Contudo, há ainda muito a ser feito. Algumas estratégias precisam ser consideradas, como por exemplo, reduzir um viés ideológico, que aparece muito nas ciências humanas, na elaboração de uma pesquisa sobre o comportamento, pois a ideologia pode ser um elemento que torne o método e/ou a análise obscura.

É importante também que os psicólogos que pesquisam divulguem mais seus achados para o público leigo, traduzindo em linguagem acessível as descobertas realizadas. Além de divulgar o conhecimento psicológico, ainda muito restrito, também servirá para a valorização da profissão.

domingo, 29 de agosto de 2010

A Estante da Ciência

*Este artigo foi publicado no jornal O Nacional, de Passo Fundo, em 17 e 18 de Janeiro de 2009. Resolvi postar no blog porque as coisas continuam iguais...

Se aquilo que uma sociedade lê reflete o que ela é, podemos concluir que a ciência é algo que não está muito no gosto dos leitores brasileiros. Em visita costumeira a algumas grandes livrarias de Porto Alegre, observei a disposição das estantes e a quantidade de títulos mostra algo curioso: além da literatura ficcional e não-ficcional, há uma grande oferta de livros de auto-ajuda. Nenhuma novidade, qualquer um pode constatar. O interessante é que estes livros estão expostos de forma que o público que entra na livraria os visualiza com facilidade e rapidez. Os livros científicos, e me refiro especialmente os de divulgação científica, que exigem do leitor um conhecimento apenas mínimo de ciência, por sua vez estão quase ausentes. Se você quiser livros de divulgação científica, vai ter que procurar. Quando encontrar, vai observar que ocupam um espaço muito pequeno em relação ao espaço da livraria como um todo (chuto por alto 1% sendo bem generoso) e, além disso, com poucos exemplares, poucos títulos e pouca visibilidade.

Esse contraste é curioso. Por que a auto-ajuda vende mais do que a ciência? Por várias razões. As pessoas possuem necessidades emocionais prementes que os livros de auto-ajuda prometem resolver com rapidez e eficiência; e realmente são muito rápidos. Você termina de ler o livro e já esquece. Numa sociedade onde as pessoas não têm mais o conforto de alguém que lhes diga como se comportar, títulos diversos de auto-ajuda dão uma referência de comportamento, mesmo que momentânea. Os livros de auto-ajuda são escritos numa linguagem muito acessível, o que facilita a leitura, além de terem letras agradáveis e não serem volumosos. E não exigem que o leitor pense muito: você joga meia-dúzia de fatos da vida, mais uma pitada de senso-comum, uma dose de "veja como você não consegue ver coisas óbvias em sua vida" e um toque final de "faça assim que você vai se dar bem" e a fórmula não tem erro. É batata. Além disso, constroem uma falsa sensação de que você descobriu as coisas que estão dando errado em sua vida e que possui o poder de mudá-las pela "força do pensamento", sentimento que dura até você começar a ler o próximo título que diz basicamente a mesma coisa.

E a pobre ciência... milhões de reais são investidos anualmente na busca de soluções científicas para os problemas humanos, e o que acontece com ela? Fica alheia à vida real, aos problemas reais, acessível a uns poucos iniciados que entendem a linguagem da matemática e ficam fuçando nas coisas até descobrir como elas funcionam. A ciência é vista como algo complicado, chato, difícil de entender, e é claro que ela vai continuar sendo assim, afinal nosso sistema educacional, por falta total de vontade política, não tem interesse que os alunos saiam pensando pelas suas próprias cabeças. Para você que fez o ensino médio, uma pergunta: quantos experimentos de química, por exemplo, você fez? Quantos você viu? E não vale a desculpa de que para fazer experimentos é necessário estrutura, equipamentos... Você sabia que com um pedaço de zinco, outro de cobre e um limão pode-se gerar eletricidade? Possivelmente não; talvez isso se deva ao fato de o limão estar muito caro no mercado. Essa é a melhor fórmula para deixar as pessoas alheias ao conhecimento: dar a ilusão de que sabem algo que na verdade não sabem. Fica bem para todo mundo assim, né?

Quando for numa livraria, se você tiver esse hábito, dê uma passada na seção de divulgação científica. Veja os títulos. Tenho certeza de que algo vai chamar sua atenção. E será algo que vai durar na sua vida muito mais tempo do que um exemplar de auto-ajuda.