Pós-graduações IMED 2013

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O software mental

Muitas vezes a mente humana foi comparada a um computador. Guardando as devidas proporções, ela é de fato um órgão computacional, responsável pelo gerenciamento das informações produzidas pelo corpo e por ela própria. Entretanto, por mais complexa que a mente seja, é um produto da evolução do cérebro, seu órgão-sede.

De forma diferente de um programa de computador, mente e cérebro foram se auto-organizando com o processo da evolução da espécie humana. Ao longo das eras, percebe-se uma organização cada vez mais complexa, desde os organismos do reino monera até os animais, passando pelos reinos protista, fungi e vegetal. Quanto mais complexo o organismo se torna, buscando nichos diferentes de subsistência, maior é a necessidade de uma estrutura que receba adequadamente as informações exoceptivas e proprioceptivas e processe-as com agilidade e precisão. Podemos dizer que no organismo humano a mente não necessariamente é tão precisa assim nos processos perceptivos, mas de longe possui uma habilidade que nenhum outro organismo possui: a flexibilidade para o processamento da informação.

Mecanismos mentais como os sentimentos, os processos lógicos de raciocínio e tomada de decisões são resultados do processo evolutivo da espécie humana que, de alguma forma, proporcionaram pequenas vantagens evolutivas, e em vista disso permaneceram. Desta forma, estrutura (cerebral) e função (mental) foram modelados pelas contingências da sobrevivência e se adaptaram mutuamente. Podemos então dizer que, se o cérebro é uma espécie de "computador", é de um tipo muito especial, pois hardware e software foram se constituindo simultaneamente.

A psicologia, neste sentido, pode ser vista como engenharia reversa, buscando identificar, a partir das funções desempenhadas pela mente, a finalidade que esta função desempenhou ao longo do processo de evolução da espécie humana e que favoreceu a luta pela sobrevivência. Esse conhecimento é de utilidade fundamental para a psicologia clínica, visto que é pela compreensão da estrutura de funções como auto-estima, apego, egoísmo e altruísmo que se poderá compreender o estabelecimento de transtornos mentais.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A psicologia "de dentro" e "de fora"

A psicanálise nasceu dos esforços de Freud para compreender um transtorno chamado de histeria. Abandonando a hipnose, precisou criar outro método de tratamento e investigação que a substituísse de forma satisfatória. Formulou o princípio da associação livre, e como desdobramento deste, o da transferência. Analisou os sonhos dos pacientes, coisas que antes eram consideradas uma espécie de "lixo" psíquico, e criou uma nova disciplina, que chamou de psicanálise.

A psicologia acadêmica tinha outros propósitos. Preocupada em analisar o comportamento humano pelos métodos das ciências naturais (observação e experimentação controlados), amadureceu como ciência graças às contribuições de Skinner no século XX. O behaviorismo influenciou, e influencia ainda, a educação, e propõe que são os elementos ambientais aqueles que modificam o comportamento.

Freud e Skinner: dois gigantes. Um enfatizando a dimensão pessoal, intrapsíquica, e o outro, o ambiente. Cada um de um lado de um precipício. Seus seguidores, mais talvez do que eles próprios, se ocuparam mais em garantir que esse fosso continuasse como estava. Seria possível, ou desejável, encurtar essa distância? A quem seria bom que isso acontecesse?

Os avanços na neurociência e o nascimento da psicologia cognitiva podem criar as pontes necessárias para aproximar estas bordas. Embora muito ainda reste por ser feito, alguns esforços incipientes estão mostrando que a divisão exterior-interior é arbitrária, conceitual, e pode tanto ser mantida como pode ser eliminada. Não é suficiente uma teoria que seja "exclusivamente" clínica, nem "exclusivamente" teórica. Enquanto se pensar assim, sem a construção de pontes, os maiores prejudicados são aqueles que deveriam ser os beneficiados.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O organismo vazio

O behaviorismo radical de B. F. Skinner é chamado também de "abordagem do organismo vazio". Isso acontece porque nesta teoria sobre o comportamento humano são ignorados elementos referentes à "mente": se os elementos mentais não podem ser observados, eles não podem conseqüentemente ser objeto de análise científica.

Torna-se claro que este posicionamento é alvo de críticas de outras perspectivas, por exemplo o cognitivismo, que postula que a mediação dos processos de pensamento é fundamental na regulação do comportamento. Não seria possível, nesta crítica, que todo o comportamento fosse regulado exclusivamente pelos elementos ambientais através dos sistemas de contingências (reforços) porque processos como a memória, o pensamento e a linguagem modelam e oferecem soluções para as diversas situações pelas quais passamos.

Obviamente os processos mentais, definidos como a capacidade de processar de forma diferenciada informações provindas do exterior e do interior do organismo, são agentes reguladores centrais do comportamento. Mas queremos nos deter no seguinte aspecto: o que seria uma abordagem "cheia" do organismo? o que seria este cheio em contraposição ao suposto "vazio" skinneriano?

Quando se fala em vazio pensa-se em cavidade. Não é o caso do cérebro, a não ser que estejamos nos referindo aos ventrículos... falar num organismo vazio como propõem os críticos significa falar que há uma ausência, no caso, uma ausência de ser pensante. Mas pensar num organismo "cheio" implica em se perguntar: cheio de quê? Talvez implicitamente a isso esteja uma imagem de uma pessoa "morando" dentro do corpo ou do cérebro, "vestindo" a roupa da pele, ocupando um "espaço" e realizando as funções do pensamento, memória, etc. Seria cheio porque haveria um morador, alguém que dá uma identidade e uma consciência a cada organismo.

É sabido que os processos mentais regulam e são regulados por mecanismos fisiológicos. Se somos constituídos de neurônios que dependem de um equilíbrio fisiológico para permanecerem vivos e processando informação, ainda resta a questão de saber o que é este ser pensante, e se ele existe, onde está. Tão problemático quanto considerar um "organismo vazio" é postular a existência de um "organismo cheio". Mesmo que seja mais confortável pensarmos que existe um "alguém" em nós, torna-se cientificamente e filosoficamente complicado explicar o que ou quem seria este alguém. Mas se somos o produto de processos cognitivos, se nossa consciência depende do funcionamento de estruturas cerebrais para existir, talvez Skinner não estivesse tão errado assim.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A não-ciência psicológica

A ciência é um dos principais mecanismos que temos para conhecer o mundo de uma forma segura, diferente das outras formas de conhecimento. Entretanto, os conhecimentos obtidos pela aplicação de uma racionalidade metódica muitas vezes contradizem os nossos desejos e expectativas, mostrando uma realidade às vezes muito dura. A história da medicina, por exemplo, tem mostrado que muitas crenças mantidas por séculos ou milênios foram derrubadas quando os dados exigiram novos mecanismos explicativos. Acreditava-se no século XVIII que miasmas eram responsáveis pelas infecções, mas depois da descoberta dos microorganismos essa teoria simplesmente foi ultrapassada. Mas não sem brigas: foi necessário que uma nova geração de biólogos viesse para aceitar essas idéias. Os fatos biológicos derrubaram as especulações.

Isso funciona muito bem para a biologia e para as ciências naturais de uma forma geral, mas nas ciências humanas, e no caso da psicologia especialmente, os fatos parecem ter uma importância relativa. Melhor dizendo: é possível estabelecer "fatos" a partir de teorias, e não o contrário. Se as teorias inicialmente serviram para explicar um determinado conjunto de fenômenos (como a teoria do complexo de inferioridade de Alfred Adler), depois acabam por formatar o pensamento, fazendo com que os estudiosos do comportamento humano se esforcem para buscar no paciente atendido algum vestígio da teoria. Ao invés de buscar dados que fundamentem a teoria, corre-se o risco de usar a teoria para achar dados no paciente. Isso porque os fatos psicológicos estão muito mais sujeitos à diferentes interpretações, por possuírem uma estrutura abstrata. É certo que a teoria, depois que os dados são compreendidos, possui um potencial de previsão nas ciências naturais, mas como separar, no caso das ciências humanas, previsão de dados e crença numa teoria?

As diversas teorias psicológicas, apesar de trazerem uma fertilidade interessante de idéias para a psicologia, acabam gerando confusão. A ausência de um pilar central, de uma teoria que possa responder de forma satisfatória explicações sobre o comportamento humano através de uma metodologia científica faz com que a psicologia não assuma um aspecto científico. E há mesmo quem diga que não é possível estudar o comportamento pela ciência... A psicologia assim não se configura uma ciência do comportamento, a não ser que estejamos falando do behaviorismo e da psicologia cognitiva, e sem ser ciência não é possível pensar em avanços sólidos em algum campo do conhecimento. Talvez o principal problema na transformação da psicologia numa ciência não seja que seus "dados" sejam abstratos, mas sim que a postura do estudioso do comportamento humano não seja uma postura, via de regra, científica.

Existem idéias que geram certa repulsa nos estudiosos do comportamento humano. Muitas vezes observamos um tom de incredulidade ou mesmo rejeição de idéias que em outros campos do conhecimento já são tidas como referência. Uma delas é a aceitação da mente como um produto evolutivo, proposição derivada diretamente da teoria da evolução de Darwin. Considerar a mente como um resultado da evolução, que é cega, acaba sendo um duro golpe em pessoas que preferem acreditar na "subjetividade" como se fosse uma entidade que existisse por si só, quase de forma independente do corpo. Não investigar os fundamentos da mente humana a partir de referências já consolidadas em outros campos da ciência, ou desprezar esses conhecimentos, fará com que a psicologia ainda permaneça num estágio pré-científico, e sem poder gozar de um status que a coloque como uma ciência válida e útil.

sábado, 21 de julho de 2007

O problema Darwin

Grande parte das pessoas já ouviu falar da teoria da evolução de Charles Darwin. Sua contribuição para as ciências biológicas foi a formulação de uma teoria sobre o surgimento dos espécimes, concorrente com a de Jean Baptiste Lamarck. Enquanto Lamarck defendia que os seres vivos se modificavam pelo uso de seus membros e órgãos, e que esse funcionamento para mais ou menos passava de geração a geração, Darwin partiu de outra premissa: não é o uso dos órgãos que favorece ou não a modificação de uma espécie, mas a funcionalidade deste órgão ou característica, que permitiria duas coisas: maiores chances de sobrevivência e mais oportunidades para a reprodução.

Até aqui, tudo bem. Se raciocinamos sobre a teoria de Darwin, que é a mais amplamente aceita na comunidade científica apesar de detalhes teóricos que ainda não foram resolvidos, podemos aceitar que ela oferece uma explicação coerente sobre o surgimento e o desenvolvimento da vida no planeta. Em suma, ela propõe que não existe uma meta final para a vida, mas sim que esta vai se construindo um pouco a esmo, ao sabor de acasos e acidentes, sempre visando a maior probabilidade de transmissão das características que tornam um organismo mais bem adaptado a um determinado meio. Até se pode aceitar esses mecanismos para os seres vivos, mas isso acaba trazendo problemas sérios quando falamos dos seres humanos.

O surgimento e evolução da espécie humana ainda possui lacunas importantes. Entretanto considera-se na comunidade científica que a espécie humana é uma como as outras demais, e que também passou pelo processo de evolução. Assim sendo, é pacífico considerar que também fomos vítimas de acasos, acidentes e manipulações do meio para que hoje sejamos a espécie que somos. Isso traz problemas sérios para nossa auto-imagem, pois nos desenvolvemos acreditando que somos especiais porque fomos criados por um ser inteligente. Admitir os processos evolutivos como constituidores de nossa estrutura física pode ser até aceitável, mas é difícil considerar que mesmo nossas habilidades mentais, produto de nosso funcionamento cerebral, também é um produto da evolução, porque isso nos destitui de um lugar onde gostamos de achar que estamos, no topo da criação.

Claro está que nenhuma outra espécie conhecida possui um grau de auto-consciência nem capacidade de raciocínio como a nossa, mas isso não significa necessariamente que somos assim graças a uma intervenção supra-natural ou que houve algo como um "projeto" que constituiu nossa espécie como nos apresentamos hoje. Se já é difícil considerar que não somos conscientes de muito do que ocorre em nossa estrutura mental, é difícil também considerar que só somos o que somos graças a um conjunto fortuito de eventos não relacionados entre si. Mas pode haver um benefício em raciocinar assim: nos tornamos mais humildes perante o que somos para nós mesmos, e as diferenças entre nossa vida e a dos outros seres vivos acabam minimizando. Assim podemos nos tornar mais responsáveis, não por causa de um desígnio divino, mas por puro e simples reconhecimento de que não somos mais do que nenhum outro ser.

domingo, 15 de julho de 2007

Corpo e mente (IV)

Li certa vez (não sei onde nem por quem foi escrito) que a cada três anos todos os átomos do nosso corpo são substituídos. Somos então totalmente diferentes do ponto de vista atômico, pois não possuo mais o mesmo conjunto de átomos. E se estendermos o raciocínio para mais além, no nível sub-atômico, podemos dizer que o problema é bem pior, pois se os átomos são compostos por sub-partículas que podem, ao bel-prazer da física quântica, aparecer ou desaparecer do nosso universo sem nos prestar conta (segundo algumas interpretações), aí sim a coisa complica ainda mais. Conclui-se que somos compostos de elementos que podem simplesmente desaparecer ou aparecer de um universo paralelo e que, além disso, nossos átomos mais cedo ou mais tarde nos abandonam em troca de outros. Mas que droga, por que não nos lembramos das viagens de nossas sub-partículas nos universos paralelos?

Então se fôssemos partir para o mais recôndito da matéria poderíamos dizer que a cada três anos somos totalmente outra pessoa. Mas porque esse dado não condiz com nossa percepção? Temos um sentimento de identidade de que nós somos "nós", apesar de nossas experiências mudarem dia a dia. Lembramos que ontem almoçamos com nossos pais, fomos trabalhar e depois dormimos. Alguém sensato diria: OK, somos feitos de matéria e energia, mas nossa consciência, memória e demais funções dependem basicamente do funcionamento dos neurônios, e é por isso que mantemos nossa identidade. Sim, a não ser que voltemos atrás na argumentação e consideremos que a sede do pensamento é a alma.

Defender que coisas como "o pensamento interfere na organização da matéria" ou "pensamento é energia que influencia a energia" como fazem alguns pseudo-cientistas é um raciocínio falho que está baseado nesse tipo de equívoco. No anseio de encontrar "algo" que possa ser a sede do ser, ou do desejo infantil de querer modificar o mundo com nossos pensamentos acaba-se usando a física quântica, que praticamente ninguém conhece devidamente além dos próprios físicos quânticos, para levar a um nível desconhecido aquilo que realmente é um mistério. Em outras palavras, tenta-se explicar um mistério utilizando um conhecimento que só pode ser adequadamente avaliado se conhecemos matemática com um nível elevado de complexidade. Isso significa que pessoas que não acreditam nos métodos da ciência, ou ao menos não acreditam nos seus resultados, acabam usando os conhecimentos dos cientistas, que utilizam uma racionalidade extrema e uma linguagem matemática: usam como argumento aquilo que desejam combater. Isso prova que praticamente nada resiste a uma boa retórica, um conhecimento escasso sobre ciência e o desejo de provar que temos/somos algo além de nosso corpo.

sábado, 7 de julho de 2007

Corpo e mente (III): Olá... tem alguém em casa?

A consciência é ainda um grande mistério, embora grandes avanços tenham sido feitos no seu estudo. Ela é um fenômeno abrangente, que permite tanto o reconhecimento sensorial do mundo quanto o reconhecimento de nós mesmos, de nossa identidade para nós e para os outros. Mas mesmo sendo abrangente, a consciência não é capaz de lidar com algumas informações (que acabam por ser, por definição, inconscientes), como por exemplo a secreção glandular, o fluxo sanguíneo e a lubrificação das articulações. Ou alguém tem consciência disso?

Mesmo os níveis elementares da consciência já despertam nosso assombro, que é aquele bom e velho conceito de consciência como "estar ciente de", como por exemplo o som de uma música ou a visão de um belo carro. Como é possível que uma meia-dúzia de estímulos físicos sejam capazes de sensibilizar nossas terminações nervosas, que acabam traduzindo isso em impulsos que são levados ao cérebro? E como é possível que estímulos nervosos sejam "montados" e gerando uma imagem, com cores, texturas, bordas, sensação de distância num emaranhado de células?

O pior do problema não é isso, mas é a "outra" consciência, aquela que me diz que eu sou eu, que eu sou diferente de você, e que, quando acordo, sei que sou eu, o que fiz ontem e anteontem, que sou do sexo masculino e que sou psicólogo. Compreender como organizamos nossas informações sensoriais já é uma tarefa gigante; nos defrontar com a pergunta "quem somos nós" é maior ainda.

Volto ao nosso bom e velho senso comum para tentar responder o problema da consciência: ou estamos abordando uma questão complexa demais que pode ser resolvida de forma absurdamente simples, dizendo que é a "alma" que faz o serviço todo, ou então consideramos que estamos diante de um pseudo-problema. Se admitimos que algo chamado "alma" existe, OK, o problema está resolvido, e não pela ciência, mas pela religião. Mas se queremos resolver o problema cientificamente, precisamos de outras explicações que sejam poderosas o suficiente e que possam ser testadas.

Falo que talvez o problema da consciência seja um pseudo-problema porque ele está mal-formulado, e se for assim nenhuma resposta será satisfatória. Talvez a resposta não seja "quem" é a consciência, mas sim que a consciência é uma ilusão, e das melhores. Mas se for uma ilusão... quem somos nós? Não foi identificada uma região que pudesse ser chamada de "a sede da consciência", porque a consciência é composta pela coordenação de diversos processos mentais. Isso quer dizer que é possível modificar e danificar processos que compõem o conjunto chamado consciência, gerando quadros bizarros onde alguém é incapaz de reconhecer a si mesmo num espelho. Portanto, mais do que ser uma região específica do cérebro, ela é o produto do funcionamento simultâneo de diversos processos mentais. E se for assim... quem é você e onde está agora? tem alguém em casa?