Pós-graduações IMED 2013

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cuidado com a depressão

Dentre os transtornos mentais mais comentados nos últimos anos está a depressão. Arrisco a dizer que não há um telenoticiário, um jornal ou estação de rádio que não tenha veiculado alguma notícia sobre este transtorno, o que reflete a popularidade deste tema.

Entretanto, por paradoxal que pareça, muito se fala em depressão mas pouco se conhece sobre ela em detalhes. Para começar, é fundamental diferenciar a depressão da tristeza. Muitas pessoas dizem que estão com depressão ao menor sinal de tristeza, o que não é correto. A depressão consiste em um conjunto de sintomas, como insônia ou hipersonia, perda ou amento de apetite e tristeza. Mas não qualquer tristeza; precisa ser constante, intensa e estar além do sentimento de controle da pessoa. Aí já podemos pensar na possibilidade de uma depressão. A tristeza é um sentimento momentâneo, mas o principal elemento de diferenciação é a tristeza passa, e a pessoa volta ao humor habitual. A depressão persiste.

Outro ponto, mais técnico, diz respeito ao diagnóstico de depressão. Temos observado que parece ser comum o diagnóstico de depressão, mesmo por profissionais não especialistas. Acreditamos que fazer isto é arriscado, pois como dissemos acima, nem toda tristeza referida pelo paciente é um diagnóstico de depressão. Isso ocorre porque há vários outros diagnósticos que apresentam sintomas depressivos, gerando um equívoco. Por exemplo, no transtorno de personalidade borderline, há crises de depressão; se estas forem observadas isoladamente, sem levar em conta o histórico de comportamento e sintomas do paciente, o diagnóstico seria de depressão, mas o paciente tem algo que pode ser mais grave e persistente, e obviamente vai exigir uma série de intervenções bem diferenciadas do que se fosse somente depressão, e por um período de tempo mais prolongado. Sadock & Sadock (2007, p. 580) referem que de 25% a 50% dos pacientes diagnosticados inicialmente com depressão tiveram posteriormente seus diagnósticos refeitos para outras condições psiquiátricas, o que mostra o tamanho do cuidado que se deve tomar no diagnóstico de depressão.

Portanto, na presença de sintomas de depressão, busque um bom especialista na área.

Referência bibliográfica

SADOCK, Benjamim J.; SADOCK, Virginia A. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 9 ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A unidade do cérebro

O estudo do cérebro humano revela coisas surpreendentes. Conforme vamos investigando a estrutura e funcionamento deste complexo órgão, percebemos que nossos esforços para separar e classificar nosso comportamento em categorias distintas (como por exemplo pensamento, afeto e sensação) é bastante arbitrário e mesmo artificial.

Podemos começar essa análise discutindo funções básicas como o controle do sono e da fome com outras consideradas "superiores" como por exemplo os afetos e o pensamento. O hipotálamo é considerado um dos principais centros de controle do sono e da fome, que é efetuada através de seus núcleos (os núcleos do hipotálamo são compostos por corpos neuronais agrupados), e está localizado nas paredes do terceiro ventrículo, no "centro" do cérebro. Lesões ou alterações nos neurônios destes grupos, causados por traumas ou tumores, podem provocar fenômenos interessantes, como por exemplo aumento ou extinção do sentimento de fome e a eliminação do controle do sono, deixando uma pessoa indefinidamente consciente.

Além destas funções corporais, os neurônios dos núcleos hipotalâmicos também controlam a regulação de emoções. Intimamente em sintonia com outros centros de controle, como o sistema reticular ativador ascendente (SRAA), o hipotálamo ajuda na modulação de nosso humor, gerando estados de tranquilidade, paz e ansiedade face a um perigo. Alterações no funcionamento das vias do SRAA provocam efeitos sobre o comportamento como um todo, causando ao mesmo tempo variações de humor, perda ou aumento da necessidade de sono, dificuldades de raciocínio e alterações em nossa disposição.

E estes são sintomas clássicos de depressão. Quando alguém toma um antidepressivo, a medicação age diretamente nos centros do hipotálamo e outras regiões do cérebro, produzindo um efeito amplo que melhora o humor, o sono e a disposição. Isto ocorre porque os grupos de neurônios que regulam o sono, a fome e a energia ou são os mesmos ou estão intimamente relacionados.

Portanto, mesmo que na nossa vida prática nós tentemos separar as funções mentais, chamando-as de "afeto", "pensamento" ou "consciência", do ponto de vista neurológico estas distinções não parecem fazer muito sentido. Se a evolução produziu neurônios capazes de regular funções mentais tão distintas, pode-se observar que é de praxe na natureza a utilização de estruturas que possuem uma finalidade específica em usos diferentes.

Visto deste ângulo, faz muito sentido pensar que o comportamento humano é, de fato, uma unidade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

10:23

Foi amplamente divulgada pela mídia uma campanha promovida por uma organização que questionava os efeitos de preparados homeopáticos. Os manifestantes ingeriram uma grande quantidade destes preparados, pois a principal crítica contra a homeopatia é que ela, devido às ultradiluições, não teria efeito superior à ingestão de placebo. O resultado da campanha, após uma semana, foi que não houve nenhum efeito observável, nem sequer intoxicação, entre as centenas de pessoas que participaram ao redor do mundo.

Pesquisas à parte, que indicam que a homeopatia não tem em média eficácia superior ao uso de placebo, este movimento parece ter demonstrado de maneira definitiva que os preparados homeopáticos não possuem os efeitos que seus defensores postulam. Entretanto, este tipo de tratamento continua sendo bastante procurado por pacientes, com o argumento de ser natural e menos nocivo do que o tratamento alopático.

Mas o que é a homeopatia? Ela é uma especialização da medicina, e baseia-se em princípios diferentes dos postulados pela medicina tradicional. Um destes princípios é que o semelhante cura o semelhante, ou seja, quando algum tipo de preparado homeopático é capaz de produzir os mesmos sintomas que uma doença, este preparado seria eficaz no tratamento desta patologia. O outro princípio central da homeopatia diz respeito à maneira como os preparados são feitos: quanto mais se diluir uma substância, através das chamadas dinamizações, mais efeito surtiria.

Assim, diversas (ou pode-se supor que qualquer) substâncias poderiam ser consideradas para um preparado homeopático. Na farmacopéia homeopática brasileira, encontra-se uma listagem destas substâncias como possíveis tratamentos de patologia, como por exemplo ácido sulfúrico, cobre metálico, escarro, fezes, pêlos, pus ou raspado de pele ou de unhas (somente para ficar com alguns). A lista pode ser conferida aqui, caso o leitor deseje mais informações.

Existe um outro dado interessante sobre a vida de Hahnemann que é pouco divulgado. Além de aplicar os preparados homeopáticos em si mesmo e em sua família, ele havia contraído malária, também conhecida como febre palustre. As auto-aplicações de Hahnemann foram utilizadas, e ainda o são, como parâmetro para o tratamento de diversas doenças. Mas se ele próprio se aplicava as medicações que produzia, e dizia que elas produziam os sintomas das doenças que supostamente tratavam, temos que refletir se as febres que ele sentia (e febre é sintoma de uma quantidade substancial de patologias) eram realmente devidas à malária ou ao uso de seus preparados. Portanto, é mais provável que os sintomas que ele tinha fossem devidos à malária, que é uma doença provocada por um protozoário e que tem em sua sintomatologia períodos febris e não-febris que podem durar horas ou dias.

Não bastasse isso, existe o problema das ultradiluições. Uma diluição consiste, por exemplo, em pingar uma gota de uma substância qualquer em um veículo, que pode ser água ou álcool, e "dinamizada", ou seja, batida várias vezes para que este veículo adquira as "propriedades dinâmicas" do composto. Mas isso é somente a primeira diluição. Em seguida, pega-se uma gota desta primeira diluição e coloca-se em outro recipiente, com o mesmo volume, e repete-se o processo. Várias vezes: 10, 20, 50, 100, 200, 500 vezes. Quanto maior o número de diluições, mais eficaz seria o preparado. Mesmo os homeopatas dizem que, após um certo número de diluições, não haveria mais presença da substância original da primeira diluição. O que resta é o conteúdo dinamizado, ou seja, uma espécie de "energia" que ficaria presente na solução, e que então teria os efeitos desejados.

A ultradiluição tem uma história interessante. Na época de Hahnemann, utilizavam-se compostos altamente tóxicos, como o arsênico. Como o objetivo do tratamento era curar o paciente, não matá-lo, havia um equilíbrio delicado entre medicar e envenenar. Se fosse encontrada uma forma de utilizar os efeitos terapêuticos da substância sem seus efeitos colaterais, ter-se-ia uma medicação que curaria o paciente. Portanto, as ultradiluições visariam tentar passar para a solução somente os efeitos terapêuticos, sem os efeitos tóxicos. O que não se pensou é que, ao eliminar a substância, também seriam eliminados os seus efeitos. James Randi neste vídeo dá mais detalhes sobre a forma de produção dos preparados homeopáticos.

É importante que as pessoas saibam do que se trata a homeopatia, porque isso pode ser uma questão importante de saúde. Este tipo de atendimento não possui os efeitos que diz ter, e mesmo pode levar a consequências desastrosas, como a morte pelo atendimento inadequado. Recentemente uma menina morreu por ter sido tratada com homeopatia, o que levou à condenação dos pais por homicídio.

Pense nisso quando o que está em jogo é a sua saúde.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A inteligência e a evolução

É impressionante ver como a inteligência é um tópico que motivou pesquisas na psicologia. Pode-se dizer que desde sempre a humanidade identificou diferentes potenciais para o processamento de informações e a resolução de problemas; contudo, foram nos séculos XIX e XX que o tópico ganhou velocidade, graças ao nascimento da psicologia como ciência e da criação e aplicação de métodos quantitativos na pesquisa. Apesar disso, a inteligência ainda é um tópico muito controverso, que suscita algumas reflexões.

Em primeiro lugar, cabe definir o que é inteligência, e aqui os problemas mais ásperos começam. É fácil montar um teste "de inteligência", aplicar e corrigir, mas é difícil argumentar que aquilo que os resultados mostram é de fato algo chamado inteligência. Qualquer pessoa tem condições, consultando a literatura psicológica, de constatar que não existe uma definição sequer consensual. Uns definem como a capacidade de resolver problemas matemáticos; outros, problemas linguísticos, outros, para a utilização de ferramentas. Há pesquisadores que construíram hierarquias para estudar a inteligência, colocando alguns fatores como prioridade sobre outros. Desta forma, com esta profusão de modelos, fica difícil pensar em uma teoria geral da inteligência, mesmo porque "geral" é um termo que também precisaria ser definido com mais clareza.

Em segundo lugar, o que os testes medem? Habilidades. Quando montamos um teste psicológico, ele serve como ferramenta para averiguar o desempenho que uma pessoa tem sobre um conjunto de problemas. Se o teste visa identificar quanto tempo uma pessoa demora para montar um quebra-cabeças, esse teste pode ser chamado de teste motor; se diz respeito a responder preenchendo lacunas com as palavras adequadas, pode ser de lógica ou de linguagem. Mas mesmo que um teste mensurasse um número incrível de habilidades, mesmo assim ele mensuraria a inteligência?

Então, é perda de tempo estudar a inteligência? Não. O que talvez seja necessário fazer é uma revisão de definições. Estamos tão acostumados com termos como inteligência e personalidade, que fazem parte do nosso dia a dia, que temos dificuldade em definir o que eles realmente são. Talvez sejam termos que expliquem muito pouca coisa, ou mais tragam confusão do que clareza.

A evolução fez surgir em nossa espécie uma capacidade para solução de problemas, o que para muitos pode ser definido como inteligência. Mas a evolução nunca teve como propósito a construção da inteligência; ela aconteceu através das pressões seletivas ocorridas. Foram estas pressões, ao longo da existência dos nossos antepassados humanos e não-humanos, que nos dotaram com um conjunto de habilidades neurológicas que permitiram resolver diversos problemas relacionados com a sobrevivência: busca de alimento, proteção e reprodução. Assim, se definimos inteligência como o conjunto de habilidades para resolver problemas e compreender o mundo, podemos concluir que, na verdade, inteligência é um termo bastante genérico, e seu poder explicativo é artificial. E quanto mais genérico for um termo, mais impotentes serão nossos esforços para tentar defini-lo e estudá-lo com clareza. Isso explicaria, em parte, porque a "inteligência" é ainda um tema tão controverso.

domingo, 1 de novembro de 2009

Limites dos testes psicológicos

Uma das principais áreas de investimento e estudos da psicologia é a da testagem psicológica. Existem no mundo centenas de milhares de testes, que avaliam várias características e habilidades, tais como memória, atenção, raciocínio lógico e aspectos afetivos. Entretanto, apesar de serem ferramentas importantes, os testes psicológicos não são instrumentos inquestionáveis, por várias razões.


Em primeiro lugar, um teste está baseado em uma teoria. Se o objetivo é mensurar a capacidade para recordar informações, é necessário que exista uma teoria sobre como a memória funciona para depois podermos avaliar suas propriedades, e assim por diante para as demais funções mentais. Entretanto, a psicologia dispõe de inúmeras teorias sobre as funções mentais e o comportamento humano. Se cada uma destas teorias propuser a construção de testes para avaliar o comportamento, teremos no fim um número significativo de testes. O problema está em que, quando um teste é construído a partir de uma teoria, fica bastante difícil que um profissional orientado por outra teoria possa utilizar estes dados, pois a explicação sobre o que está sendo estudado é via de regra bastante diferente. Portanto, cada teoria psicológica pode ter reforçada sua posição como uma "ilha", relativamente isolada no oceano do estudo do comportamento.


Outra questão, agora intra-teórica, consiste no problema da interpretação do teste. Uma boa interpretação só terá sentido se for feita dentro da teoria onde o teste foi construído, como já mencionamos acima. Isso pode se constituir eventualmente numa fragilidade, pois são muito variáveis as possibilidades de interpretação, e é quase regra que, dentro de uma mesma teoria, haja muitas vertentes e modelos (a psicanálise é o caso clássico). Portanto, mesmo que um teste seja construído por um referencial teórico, as variações intra-teoria devem ser consideradas na interpretação.


Cada teste possui uma metodologia de construção. Os testes projetivos visam avaliar características subjetivas dos avaliados, tais como dinâmicas intrapsíquicas e mecanismos de defesa. Os testes psicométricos possuem uma estruturação diferenciada, orientada pelas ferramentas estatísticas. Para estes, existe um rigor estatístico que precisa ser observado. Por exemplo, um teste psicométrico está baseado nas respostas de um número significativamente grande de pessoas, pois isso aumenta o seu poder de avaliação. Precisa ser válido também: um teste de atenção deve realmente mensurar a atenção, e não outra coisa, senão não será útil (e aqui uma boa teoria faz toda a diferença). Deve ser fidedigno, ou seja, precisa ser estável, capaz de continuar mensurando uma característica por um tempo considerável, e ser preciso, que se reflete na capacidade de dar um "valor" adequado àquilo que está sendo medido. Desta forma, quando o teste for aplicado numa pessoa, suas respostas serão comparadas com as outras que já foram emitidas a ele e servem como referência. Para regulamentar e fiscalizar a qualidade dos testes, o Conselho Federal de Psicologia desenvolveu o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), que avaliou vários testes disponíveis no Brasil e possui uma listagem daqueles que são considerados favoráveis para aplicação.


Mesmo que um teste seja bem construído e baseado numa teoria consistente, de nada adiantará se a pessoa que o aplicar não tiver o treinamento adequado. Um teste não pode ser aplicado de qualquer forma em qualquer situação: o desempenho de uma pessoa avaliada por um teste de atenção será certamente prejudicada se as situações ambientais não forem favoráveis (por exemplo, se houver muitos ruídos na sala, movimentação de pessoas, etc.). Assim, um bom treinamento do avaliador é fundamental para a qualidade da realização da testagem.


Finalmente, um teste somente não é capaz de avaliar vários aspectos de uma pessoa. Não tem sentido nenhum aplicar somente um teste numa pessoa e ter a pretensão de que isso diga "tudo" sobre ela. Os testes existem para avaliar habilidades e características específicas, pois um teste de atenção nada dirá sobre a vida afetiva de uma pessoa ou suas habilidades interpessoais. Fazer este tipo de interpolação é totalmente inadequado.


Apesar destas observações, os testes psicológicos se constituem numa ferramenta fundamental para o trabalho do psicólogo. Como instrumentos construídas pelo homem, possuem limitações. Mas desde que estas limitações sejam conhecidas e controladas pelos profissionais, eles continuarão sendo bastante eficazes e capazes de traduzir características e motivações do comportamento humano.

domingo, 27 de setembro de 2009

O mundo de Maya

O pensamento oriental ensina que o mundo é Maya, ou seja, é uma ilusão. Esse ensinamento pode parecer um contra-senso para nós, afinal vemos pessoas, prédios, carros, nos relacionamos e trabalhamos. Isso é uma ilusão? Não existe? Existe sim. Dizer que o mundo é uma ilusão não é dizer que nada existe, mas é afirmar que as coisas podem ser diferentes do que o que estamos vendo e sentindo.

Quanto uma pessoa tem depressão, por exemplo, não é ilusão o sentimento de tristeza que ela tem, nem a falta de energia para fazer as coisas. Ela também não é uma pessoa preguiçosa ou vagabunda, como os familiares ou ela mesma pode vir a acreditar que é. Se ela se apresenta nesse estado, é porque um conjunto de acontecimentos prévios favoreceu esta situação. Como dissemos já em outros artigos, os fatores genéticos possuem influência sobre os transtornos mentais, tanto quanto os aspectos relacionais. É nesse ponto, nas relações que estabelecemos, que as ilusões passam a existir.

Pesquisas em psicologia cognitivo-comportamental têm apontado que a pessoa que está com depressão percebe-se de forma negativa, percebe o mundo como hostil ou ameaçador e visualiza seu futuro com pouca ou nenhuma esperança. Isso significa que ela vê a si mesma, o mundo e o futuro de forma triste, sem perspectivas de mudança, porque sua tristeza acaba por prejudicar seu raciocínio. Então, mesmo que alguém tenha dinheiro, um bom emprego e relações afetivas satisfatórias, não vai conseguir se sentir bem porque não vai enxergar as coisas favoravelmente, e isso vai gerar mais tristeza, criando um círculo vicioso.

A medicação tem papel muito importante para restabelecer os neurotransmissores, que é uma das etapas do tratamento da depressão. Mas um tratamento somente com medicação não é suficiente, na maioria dos casos, para restabelecer a saúde mental. Nesse ponto é que entra o combate à Maya. Ao conversarmos com alguém com depressão, poderemos observar que ela vai mencionar que as relações que estabeleceu com pessoas importantes no passado nem sempre foram tranqüilas, e é bem possível que, de uma forma inconsciente, ela aprendeu que com ela as coisas não vão dar certo. É bastante comum ver que pessoas com depressão tiveram muitas cobranças emocionais de pessoas importantes, como os pais, e aprenderam que devem fazer tudo "certinho" para agradar essas pessoas. Como não temos o hábito de analisar nossos comportamentos e o comportamento de nossos pais em profundidade, geralmente é só quando se faz psicoterapia que se pode identificar que essas cobranças estão atrapalhando muito a vida do paciente. Muitas pessoas talvez não gostem da psicoterapia porque ela confronta nossas crenças e derruba ilusões: ilusão de que nossos pais foram bons para nós, a ilusão de que nosso emprego era tudo o que queríamos, e a ilusão de que o casamento que temos é o melhor ou o pior do mundo. Isso não significa que os pais, os companheiros e os chefes são os culpados pelo que acontece de ruim em nossas vidas: significa aceitar que eles são humanos, como nós, e acertam e erram, como nós.

Se é um processo doloroso derrubar as ilusões, reconstruir uma nova possibilidade de vida é trabalhoso. Mas nossas vidas são feitas de escolhas. Podemos escolher continuar sofrendo e não fazer nenhum tratamento. Podemos escolher só tomar a medicação. Podemos escolher continuar no emprego que nos dá um bom salário mas nos tira a noite de sono e a paz. Pasmem, podemos escolher ficar no casamento que temos, mesmo que ele seja horrível. Podemos escolher reclamar sem fazer nada, ou então aceitar passivamente sem reclamar nossas dores e sofrimento. Mas se optamos por desconstruir nossas ilusões, assumimos riscos: o risco de ter felicidade, o risco de ter liberdade, e o risco de comandar nossa própria vida.

*Este artigo foi publicado num jornal local em 2008.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O segredo de uma vida feliz

Essa é uma das questões que sempre nos acompanhou ao longo da trajetória humana. Podemos dizer que nosso comportamento possui como um de seus motivadores centrais a busca pelo bem-estar e a alegria, ditos de uma maneira mais simples, da felicidade.

Mas quais são as coisas que nos deixam felizes? Talvez o estudo longitudinal mais longo realizado na história da ciência - superior a 70 anos -, elaborado pela Harvard Study of Adult Development da Harvard Medical School, coletou dados diversos de 200 estudantes homens. Os dados investigavam uma lista ampla de características, tais como saúde emocional e física, e as comparavam com suas carreiras, casamentos, hobbies e nível de satisfação com a vida.

Foi encontrado que a prática de exercícios físicos está correlacionada positivamente com uma boa saúde mental na terceira idade, e que a prática religiosa, ou proximidade com uma religião, não está associada com saúde física, mental ou bem-estar social. Certamente que diversas variáveis controláveis são preditoras de uma vida feliz, enquanto que outras nem tanto (como os fatores biológicos relacionados à longevidade dos ancestrais), mas um dado pode ser apontado como um dos principais fatores da felicidade: Bons relacionamentos. Os relacionamentos satisfatórios com outros significativos, como pais, cônjuges e filhos desde a infância são os preditores mais importantes da felicidade.

O artigo pode ser lido aqui (em inglês).