Pós-graduações IMED 2013

domingo, 20 de março de 2016

A coisa mais difícil do mundo



Enquanto o neto brinca na sala, sentado no chão, o avô sentado em frente à TV procura algum programa interessante. Nesta busca, fica alguns instantes assistindo a um documentário sobre a chegada do homem à Lua. Em seguida, passa para um canal de notícias em inglês. Após alguns instantes, troca para um programa que mostra um campeonato de xadrez.   

Aparentemente sem estar atento aos movimentos do avô, o menino pergunta:

- Vô, o que é a coisa mais difícil do mundo?

- Como assim? O vô não entendeu. Explica melhor o que você quer dizer.

- Olha ali... passou antes na TV as pessoas viajando no espaço. Isso é difícil porque a gente está fora do planeta. Também mostrou as pessoas falando inglês, que é difícil de entender. Jogar xadrez também é difícil, porque a gente não sabe o que o outro tá pensando. Então eu queria saber o que é a coisa de fazer que é a mais difícil do mundo.

Depois de um segundo e um sorriso, o avô responde:

- Olha, não sei o que é a coisa mais difícil do mundo, mas eu tenho um palpite.

- O que é, vô?

- Eu acho que a coisa mais difícil é mudar o comportamento.

Nesse momento, o pai do menino, que está passando pela sala, para e fica a escutar a conversa.

- Como assim?

- Sabe quando você tem que acordar cedo e ir pra aula?

- Sei, vô.

- É fácil fazer isso?

- Não.

- Por quê?

- Porque eu tenho muito sono e eu quero dormir.

- Então, mesmo que você goste da escola e dos seus colegas, mudar isso é difícil. Exige muita paciência e esforço, e muitas vezes a gente tem que fazer tudo de novo, do começo. Por isso eu acho que a gente mudar o que a gente faz é a coisa mais difícil do mundo.

O menino, pensativo, sai da sala para pegar outros brinquedos em seu quarto.  Nisso, o pai se aproxima e pergunta:

- Pai, por que você nunca disse essas coisas pra mim quando eu era criança?

- Porque, meu filho... porque eu também mudei meu comportamento.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Bonsai


O menino, curioso sobre o que ocupa tanto tempo do avô, se acerca e observa. As experientes e enrugadas mãos manejam firmes e com destreza a pequena planta, demonstrando ao mesmo tempo segurança e carinho. De canto de olho, o avô nota os movimentos curiosos do neto e sorri, sem que a criança perceba.


O aumento da curiosidade faz o guri se aproximar e, nas pontas dos pés, vê o avô revirando a terra que deixou desnuda a raiz. Ora olhando para a planta, ora olhando para o avô, percebe que isso deve ser importante, porque há seriedade, silêncio e um ar de sagrado.

- O que está fazendo, vô?

- Um bonsai.

- O que é isso?

- Uma pequena árvore.

- E como se faz isso? Como faz pra encolher uma árvore? Pergunta o menino, do alto dos seus sete anos de idade.

Sorrindo, o avô paciente e amoroso responde: - Bem, a gente faz isso cuidando das raízes e das folhas.

- Como assim?

- De tempos em tempos, a gente olha como estão as raízes, e poda elas. Corta aquelas que estão em excesso, mas deixa as que farão a planta continuar vivendo. Com isso, ela se adapta e cresce tudo aquilo que as raízes que ficam permitirem.

Atentamente, o neto ouve que além de podar as raízes é necessário fazer a poda das folhas e galhos. Não se pode deixar pouca raiz se não for retirado o excesso de folhas: raiz de menos ou folhas demais, a planta morre. Então, é preciso cuidar do que está embaixo da terra tanto quanto aquilo que está acima.

Sem tirar os olhos do vaso, o avô diz:

- Da mesma forma é com a gente. Nós temos raízes, que são a família de onde viemos, nossos pais e irmãos. Eles nos nutrem com suas experiências, seu carinho, seus defeitos e qualidades, e isso tudo é o adubo que faz bastante do que a gente é. Se não cuidamos disso e se não podamos aquilo do passado que nos atrapalha, o que vem das raízes poderá nos fazer mal. Ao mesmo tempo tem as folhas: precisamos tirar aquelas que consomem muito, sem cortar as que nos deixam vivos. Estas folhas são a nossa vida atual: nossa escola, nosso trabalho, nossos amigos, filhos, netos... Precisamos escolher o que nos ajuda a crescer e lidar com o que pode nos prejudicar. A sabedoria do bonsai nos ensina a olhar para as raízes e para as folhas, e com isso damos a forma para a árvore que queremos ser.

O menino sorri e corre para o pátio. Atento para a terra, o avô mergulha no passado pensando no futuro.

*Publicado no jornal Diário da Manhã de Passo Fundo, 7 e 8/11/2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A importância da psicologia

Todos nós, intuitivamente, avaliamos o comportamento. Quando estamos no trabalho e observamos se nosso colega trabalha mais ou menos do que nós, quando estamos na calçada e cuidamos se as pessoas olham para os dois lados antes de atravessar a rua ou quando damos uma reprimenda ao filho porque ele não tem se comportado bem, estamos na verdade determinando o nosso comportamento a partir de uma avaliação do comportamento do outro. Assim, as pessoas se avaliam de forma livre, utilizando o aprendizado que tiveram durante suas vidas. Chamamos a isso de senso comum, que é uma forma básica e natural de avaliar o comportamento.

Fonte: UFMS

Um psicólogo tem por ofício avaliar, compreender e intervir no comportamento, mas para isso não utiliza o senso comum, e sim os métodos da ciência. A psicologia nasceu oficialmente em 1879, na Alemanha, na Universidade de Leipzig com a abertura do primeiro laboratório de psicologia experimental, por Wilhelm Wundt. Na época, houve uma grande preocupação em fazer com que o estudo do comportamento tivesse uma base científica, e isso acabou separando o estudo do comportamento (a psicologia) da área-mãe, que era a filosofia. Mesmo que hoje o diálogo entre filosofia e psicologia continue fundamental, cada uma seguiu seu rumo.

Desde aí, muitos estudiosos contribuíram significativamente para a compreensão do comportamento. Sigmund Freud propôs que nossos comportamentos não são totalmente controlados pela vontade, abrindo um vasto terreno de investigação. Carl Rogers propôs que o ser humano tem bons potenciais para o crescimento, e o ambiente pode nos ajudar ou criar barreiras para o crescimento saudável. E assim a psicologia foi amadurecendo.

Nos Estados Unidos, no início do século XX, John Watson propôs que apenas uma análise científica do comportamento poderia ser confiável. Não basta apenas utilizar a intuição e opiniões; a ciência seria a ferramenta central que daria o conhecimento que precisamos para compreender o ser humano. Desta forma, Watson reafirma as ideias de Wundt e fortalece as bases para o surgimento do estudo científico do comportamento. B. F. Skinner foi um dos principais pilares da psicologia científica, e propôs estratégias eficazes para a compreensão e a modificação do comportamento. Suas ideias foram amplamente aceitas e utilizadas. No campo educacional, por exemplo, seus princípios de educação autodirigida formaram as bases para o aprendizado mediado por computador e o que hoje conhecemos por educação à distância (EaD). Pode-se dizer que hoje a educação tem muito a ganhar ao continuar utilizando as ideias de Skinner.

Hoje a psicologia contribui para melhorar os relacionamentos humanos e aumentar a qualidade de vida. A ciência psicológica atua no tratamento de transtornos mentais, como os transtornos de ansiedade e os transtornos de humor. Cria todos os dias novas ferramentas de avaliação do comportamento. Está presente no sistema educacional, auxiliando a gerenciar conflitos e melhorando o potencial de aprendizado de nossos filhos. Está nos hospitais e consultórios odontológicos, aprimorando o relacionamento entre a equipe e o paciente e promovendo a saúde. Está nas empresas, melhorando as relações e buscando promover a qualidade de vida no trabalho. Está no fórum e nos presídios, auxiliando os operadores do direito a compreender a complexidade do comportamento humano, e ajuda o arquiteto a construir espaços que sejam funcionais, agradáveis e ao gosto do cliente. A psicologia está em toda atividade humana.

É inegável a importância e a amplitude que a psicologia possui. A sociedade a cada dia está reconhecendo mais a necessidade de compreender o comportamento de forma científica e confiável. Essa é a proposta e a importância da psicologia para todos nós, e ela só deixará de ser importante quando não houver mais seres humanos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Boas festas

Embora as pessoas tenham os feriados de Natal e Ano Novo como momentos de festa e confraternização, é bastante comum ver aumento do estresse e o surgimento de vários conflitos. O que deveria ser uma época de amor e paz pode trazer muitas dores de cabeça e brigas familiares. Por que isto acontece? Durante o ano, as pessoas seguem suas vidas rotineiras, trabalhando, estudando, namorando, viajando, levando e trazendo os filhos da escola, e muitas vezes nem têm tempo direito para pensar em si. Essa correria que todos vivemos não nos deixa ver nosso envelhecimento, nossos desejos, nossos medos e nossas esperanças. E também nos ajuda a esquecer das mágoas do passado e das pessoas que machucamos ou que nos machucaram. 

As festas são momentos onde os parentes se visitam, e nessa onda os antigos conflitos podem reaparecer. Se temos lembranças ruins ou más experiências de nossa infância, nesses momentos podemos estar comemorando com algum desafeto. Os conflitos familiares poderão ser aumentados pela expectativa da presença de quem nos magoou ou que magoamos. E tudo aquilo que deveria ser felicidade e esperança vira um tormento. 

Então não tem jeito? Ou temos a sorte de ter bons relacionamentos familiares e tudo corre bem, ou estamos fadados à infelicidade? Felizmente, há estratégias para lidar com os revezes afetivos. Uma destas possibilidades é conversar. Aproveitar este momento para fazer as pazes com quem nos magoou pode ser um importante lenitivo para nossas tristezas. Numa hora destas, não tem importância quem é o culpado, ou quem atirou a primeira pedra; o fundamental é abrir-se para conversar, pedir desculpas e aproveitar o que o futuro tem de bom. Numa briga, geralmente as duas partes possuem responsabilidade; mas mesmo que uma seja mais "culpada" que a outra, o exercício do perdão sincero é um excelente remédio para todos. Afinal, mais do que presentes e comidas, o Natal não é a celebração do perdão e da esperança entre as pessoas? Um perdão sincero é um presente muito maior do que uma ceia cara. 

Se o perdão já foi dado ou pedido, e o outro não está ainda preparado para aceitar... talvez se precise apenas dar tempo ao tempo. Assim como nós não estamos sempre prontos para ouvir uma verdade, o tempo da outra pessoa ainda pode não ter acontecido. Cabe então esperar, com a confiança de que um dia as coisas fiquem claras para o outro, como ficaram para nós.

Tem forma melhor de iniciar um Novo Ano?

domingo, 7 de setembro de 2014

Uso de estimulação magnética transcraniana é eficaz no tratamento de sintomas depressivos

Um estudo conduzido pelo McLean Hospital, da Harvard University, apresentou que a estimulação neurológica através de campos magnéticos é eficaz no tratamento de sintomas depressivos, aliviando o humor dos pacientes.

Fonte: Harvard Gazette

O campo magnético possui menor intensidade em comparação àqueles utilizados na estimulação magnética transcraniana (EMT) convencional. Contudo, possui uma frequência mais elevada; isto seria um dos fatores que melhoraria mais rapidamente o humor dos pacientes em relação à EMT convencional, que demora mais para produzir os efeitos desejados.

Uma combinação entre EMT de alta frequência com medicamentos pode ser uma estratégia eficaz no tratamento da depressão. Pode-se pensar também que a utilização da EMT até que os medicamentos comecem a ter efeitos mais duradouros sobre o humor (o que geralmente dura entre duas e três semanas) seja considerada um aperfeiçoamento ao tratamento convencional.

O avanço no tratamento de sintomas depressivos é algo necessário, tendo-se em vista os grandes prejuízos pessoais, interpessoais e laborais que provocam na vida de uma pessoa. Deve-se sempre ter em vista que apenas o tratamento medicamentoso, por si só, não é uma estratégia totalmente eficiente para a melhora dos sintomas. A psicoterapia é fundamental para a melhoria dos sintomas depressivos, ajudando o paciente a rever aspectos de sua vida e a melhorar o controle de novas crises.

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terça-feira, 22 de julho de 2014

Discurso de formatura da turma de psicologia 2014-2 da IMED


Agradeço profundamente o convite para ser paraninfo da turma de psicologia 2014-2 da IMED. Compartilho abaixo o discurso da formatura.

Caros novos colegas psicólogos e demais presentes,

Sempre digo que a psicologia é uma escolha difícil, e que é um dos cursos que mais exige da gente. Já disse que estudar outras áreas é relativamente mais fácil do que estudar psicologia, porque estudamos o comportamento. Esta dificuldade, ou complexidade, ocorre porque existem muitos fatores que influenciam a forma como nos comportamos: temos os fatores genéticos, os ambientais, os sociais, que interferem no nosso comportamento de forma muito significativa... uma outra razão, mais densa que essa, é que precisamos aprender a ver a nós mesmos com outros olhos. Posso dizer que esta é a grande tarefa do curso de psicologia: fazer com que os alunos enxerguem coisas invisíveis e dolorosas, mas, ao mesmo tempo, libertadoras.

Existe uma outra razão pela qual a psicologia é uma escolha difícil. Nossa profissão ainda é invisível à sociedade. Muitas vezes as pessoas, por pura não compreensão do que faz um psicólogo, acaba achando que nós "apenas conversamos", ou que "não dizemos nada", ou que não propomos soluções. Esta é uma prova que devemos, como parte de nosso trabalho, a busca de uma maior compreensão do que a psicologia deve e pode fazer. Reforço que é compromisso de vocês, nosso, que a psicologia seja divulgada de uma forma que as pessoas saibam para que ela serve, e assim nosso serviço para a sociedade seja aperfeiçoado.

Escolher a psicologia não é algo fácil porque por mais que vocês tenham o desejo de compreender o comportamento do outro, sempre o seu comportamento estará também no jogo. Vocês se confrontarão com dúvidas, e aprenderão com o semelhante coisas que ainda nem imaginam. Tudo isso pelo desejo que possuem de compreender o que o outro pensa, e por que o outro faz o que faz.

Para sermos psicólogos, precisamos empreender duas jornadas: uma técnica, a outra, pessoal. Tecnicamente, vocês receberam durante a formação uma ótima base teórica e prática. O compromisso da IMED, desde quando se constituiu como faculdade e desde que este curso iniciou, foi e é a de formar não apenas bons profissionais, mas os melhores profissionais. Queremos formar os melhores psicólogos, pois é apenas desta forma que faremos a diferença.

A outra jornada, pessoal, do conhecimento de si mesmo, é dura. Hoje, em tempos rápidos, onde a informação é um bem de consumo, parece que o autoconhecimento deixou de ter a importância que realmente merece. Talvez o verdadeiro autoconhecimento nunca tenha sido realmente valorizado como deveria, pois se assim o fosse é bastante possível que hoje teríamos uma sociedade melhor, menos corrupta, e que valorizasse mais o ser humano. Vocês acreditam nestes valores, e por isso fizeram psicologia.

Vocês serão buscados pelas pessoas quando elas estiverem em situações difíceis, frágeis, desconsoladas e perdidas, quando tiverem perdido os que amam e aquilo que acreditavam que era a verdade de suas vidas; quando houver uma catástrofe e perderem tudo, de material e de sentimental. Vocês, contudo, não darão respostas definitivas sobre o que elas deverão o não fazer, mas as ajudarão humanamente a encontrar e a construir suas próprias respostas, a resgatar o sentido de suas vidas.

As verdadeiras questões continuam as mesmas, e permanecem intrigantes: quem somos nós? de onde viemos? e para onde vamos? pensar nisso desperta desconforto, dor, e preferimos muitas vezes uma vida rápida e vazia, porque assim a dor, que nos incomoda, não aparece. Mas não, um dia ela vem com toda a força, e nos leva... se não conseguimos achar as respostas por nós próprios e a dor persistir, é um psicólogo que pode nos auxiliar. Esta é uma nobre atividade, isso mostra o que possuímos de realmente humano, e isso torna o mundo melhor.

Por fim, me resta agradecer a vocês não apenas pelo convite como paraninfo desta formatura, mas por tudo o que vocês me proporcionaram. Muito obrigado pelo aprendizado que tive com vocês ao longo destes cinco anos. Obrigado por me mostrar que nosso trabalho traz ótimos frutos. Por mostrar que ajudamos as pessoas em momentos críticos, e que isso faz toda a diferença do mundo, para nós e para elas. Obrigado por acreditarem na psicologia e por escolherem, como um dia eu escolhi, ela como minha profissão. Isto também me tornou mais humano. Não desistam nunca de seus sonhos, porque são eles o que realmente nos mantém vivos. Sucesso!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Descobertos genes relacionados ao Transtorno Afetivo Bipolar

O transtorno afetivo bipolar (TAB) é caracterizado por grandes variações de humor, fazendo com que a pessoa ora experimente fortes sintomas depressivos e, pouco tempo após, sinta-se muito bem, com energia e disposição bastante elevadas. Estes sintomas causam prejuízo significativo nas relações interpessoais e no trabalho, pois se a pessoa possui dificuldade para estabilizar seu humor, alternando períodos de "alta" e "baixa", terá dificuldades para manter um relacionamento estável e um rendimento laboral adequado.

A prevalência do transtorno, segundo o DSM-5, é de aproximadamente 0,6% da população (nos Estados Unidos). Considerando estes dados para o censo do Brasil (2010), estima-se que cerca de um milhão de pessoas tenha o transtorno.

Fonte: Cultura

Recentemente, o professor Markus Nothen da Universidade de Bonn, Alemanha, identificou genes relacionados com o transtorno bipolar. Comparados com pessoas sem o transtorno, há três genes que ocorrem com maior frequência em pessoas com o transtorno, o que poderia aumentar as chances de provocar as variações de humor.

Os achados são relevantes para a compreensão mais ampla do transtorno. Contudo, reduzir o TAB à genética é simplista. Dados de pesquisa neurológica apontam que as estimulações que uma pessoa tem do ambiente são tão determinantes quanto a genética na definição do comportamento. Mesmo que uma pessoa tenha genes que favoreçam o TAB, o ambiente é "gatilho" que favorece, ou não, o aparecimento dos sintomas. Se uma pessoa possui os genes, mas o ambiente oferece poucos estressores ou a pessoa gerencia bem estas pressões, a probabilidade de aparecimento dos sintomas é muito menor.

Dados de pesquisa genética e biológica precisam ser cruzados com a pesquisa psicológica. O comportamento humano é complexo e multideterminado. Hoje se sabe que não podemos, apenas em raras situações, atribuir a causa de algum transtorno mental apenas a um fator. Quando fazemos isso, estamos simplificando uma coisa que não é simples. A melhor compreensão do comportamento humano leva em conta a grande gama de variáveis ambientais e biológicas que nos constituem e compõem nossa história.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O medo apagado

O medo é uma reação instintiva que auxilia os animais a evitar situações aversivas, aumentando as chances de sobrevivência. A seleção natural promoveu a reprodução e o refinamento deste comportamento como uma estratégia para manter o organismo vivo, pelo aprendizado da diferença entre o que é seguro e o que aparentemente não é.

Contudo, experiências de medo excessivo podem ter efeitos colaterais, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O DSM-5 (2013) refere este transtorno como uma situação de exposição a situações que geraram risco de morte, lesões ou violência sexual, seja ela vivida ou presenciada.

Fonte: iStock/HMS

Os principais sintomas do TEPT são a recorrência involuntária de memórias intrusivas do evento e um esforço importante para evitar essas memórias, sonhos relacionados à situação e problemas de sono, uma revivência do trauma, como se estivesse novamente o presenciando e evitação de pessoas e situações que possam relembrar o trauma. Além disso, pode ocorrer "apagões" de memórias relacionadas ao evento, medo de estranhos, dificuldades de concentração. Finalmente, os aspectos emocionais incluem um sentimento de ser mau por ter passado pelo evento, culpa, medo, irritabilidade aumentada, vergonha e dificuldade para sentir novamente emoções positivas.

Como estratégia de tratamento deste quadro, pesquisadores do McLean Hospital da Harvard Medical School relataram que a alteração da atividade da córtex pré-frontal medial está associada com uma redução da atividade da amígdala, estrutura cerebral associada a comportamentos de medo. O pesquisador Vadim Bolshakov publicou um artigo na revista Neuron onde relata que as experiências de medo em ratos foram suprimidas através da estimulação desta região da córtex. Assim, houve uma inibição do funcionamento da amígdala, e as reações fortes de medo que antes ocorriam passaram a praticamente não ocorrer mais.

Esse achado pode ajudar de forma importante a tratar pessoas com dificuldades severas em lidar com o medo, especialmente para aquelas que a psicoterapia não esteja sendo eficaz. O conhecimento dos circuitos cerebrais envolvidos nas respostas emocionais é fundamental para compreendermos os mecanismos do comportamento, além de fornecer novos recursos terapêuticos para o tratamento de psicopatologias.

sábado, 31 de agosto de 2013

Cidades inteligentes e o comportamento humano

Há alguns anos já se vem discutindo, especialmente via governos e grandes empresas como a Siemens e a IBM um conceito chamado de cidade inteligente. Nesse conceito, defende-se, em linhas gerais, que as tecnologias de informação são ferramentas que permitem modificações fundamentais sobre a forma como gerimos recursos e como nos relacionamos com o ambiente.

Uma das características principais das cidades inteligentes é a capacidade de estar "conectada", ou seja, de captar e processar informações, derivados de diferentes meios - tais como câmeras ou outros tipos de sensores - para que estas informações possam ser utilizadas para resolver problemas diversos, e otimizar recursos. Por exemplo, hoje tem-se a capacidade de identificar se uma determinada região está com as vias de trânsito obstruídas devido a um acidente; uma cidade inteligente é capaz de reduzir ou evitar congestionamentos através do monitoramento de vias de grande tráfego, desviando-o quando necessário para outras vias alternativas. Da mesma forma, uma gestão inteligente de recursos pode evitar problemas como apagões elétricos, que traz prejuízo a todos, através da previsão de um aumento do consumo de eletricidade.


Se os benefícios e as possibilidades dos recursos tecnológicos para se constituir e gerir cidades inteligentes é um recente, o conceito do uso de estratégias inteligentes para modificar padrões humanos de comportamento social não é. A psicologia e a sociologia já vem estudando aquilo que hoje chamamos de cidades inteligentes, focando em possibilidades de modificação do comportamento, há algumas décadas.

Um destes casos em especial chama-se Walden II. B. F. Skinner escreveu em 1945 um romance onde um grupo de pessoas descreve uma cidade planejada de acordo com a "engenharia comportamental" derivada dos conceitos fundamentais da teoria behaviorista. Ele propõe soluções para a educação, criação das crianças, educação e o trabalho. Um dos exemplos disso refere-se à escolha das profissões, onde Frazier, o idealizador da cidade, explica que um dos elementos que faz com que as pessoas escolham determinadas profissões seja a remuneração potencial, tanto quanto o status que a sociedade atribui a esta ocupação.

Por óbvio que a sociedade mudou muito desde que Walden II foi escrito, e também que nem todos os seus elementos podem ser aplicados diretamente na sociedade de hoje. Entretanto, é interessante observar que há um paralelo entre o que hoje chamamos de cidades inteligentes e o planejamento da vida, e que é crescente a necessidade de discutir estes temas coletivamente. Uma cidade verdadeiramente inteligente será aquela que seja capaz de discutir e alterar aspectos fundamentais da vida de forma importante para todos, para além das questões de destino de dejetos e eficiência energética.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O fim da avaliação multiaxial

Nas terceira e quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais e de Comportamento da Associação Psiquiátrica Americana (DSM), a presença da avaliação multiaxial apresentou-se como uma das características definidoras da forma como os transtornos mentais eram avaliados pelos clínicos. Contudo, na versão mais recente - o DSM-5 -, o sistema multiaxial deixa de existir como estratégia de avaliação do comportamento.


De acordo com a APA, o DSM-III introduziu um número significativo de inovações, que incluíam critérios diagnósticos explícitos e o sistema multiaxial, além de uma abordagem ateórica para a etiologia dos transtornos mentais. A estrutura multiaxial perdurou no DSM-IV e no DSM-IV-TR, e orientou uma geração inteira de clínicos no sentido de observar, além dos transtornos mentais, de personalidade e retardo mental, doenças orgânicas associadas aos transtornos, a influência e os efeitos de variáveis psicossociais e ambientais sobre o comportamento patológico e uma escala de avaliação global do funcionamento (AGF).

Esta avaliação multiaxial buscou transcender o simples "olhar para o transtorno mental", forçando o clínico a compreender a dimensão orgânica do paciente, mas principalmente a influência de fatores externos sobre o seu comportamento. Este olhar mais amplo permitia uma visão de dimensões que, possivelmente, estivessem fora do alcance do clínico, mas que estão muito relacionadas com o surgimento e a manutenção dos sintomas.

As razões para tal mudança, segundo o manual lançado no mês de maio passado nos Estados Unidos, seriam que a avaliação multiaxial não era obrigatória para o diagnóstico de transtornos mentais, pois os eixos III, IV e V não contribuiriam diretamente para o diagnóstico do paciente. Embora o eixo IV - problemas psicossociais e ambientais - estivesse diretamente relacionado com o transtorno atual, ele não fornecia elementos diagnósticos (sintomas) que contribuíssem para a avaliação do paciente, mas forneceria dados referentes ao ambiente. Assim, a proposta é a de que, havendo a necessidade de apontar os fatores ambientais, que se utilize os códigos Z da CID-10.

Em relação ao eixo V - AGF -, a principal justificativa pela exclusão seria a de que a pontuação proposta não apresentava características psicométricas compatíveis com a prática cotidiana do clínico, embasando-se num juízo mais subjetivo, além de propor sintomas que não estavam necessariamente relacionados com o diagnóstico do eixo I. Como alternativa, o DSM-5 propõe outras escalas para avaliação do paciente, tais como a escala de avaliação de prejuízo da OMS, havendo a necessidade de avaliar o funcionamento global do paciente com parâmetros já estudados.

Embora o DSM-5 ofereça uma lista ampliada de diagnósticos, incluindo transtornos que em versões anteriores estavam incorporados em outros (como por exemplo o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual) ou que mereciam destaque tendo-se em vista os elevados prejuízos que produzem (como o Transtorno de Acumulação), corre-se o risco que, com a eliminação do sistema multiaxial, o clínico fique mais focado numa avaliação do paciente per se, talvez não focando-se com a atenção necessária para elementos ambientais fortemente relacionados com o transtorno apresentado no momento pelo paciente. É fundamental que o clínico mantenha-se atento para o paciente como um todo, o que inclui seu ambiente e sua história, pois somente desta forma será possível avaliar da forma mais adequada possível o quadro, bem como efetuar o melhor planejamento terapêutico.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A liberdade da ciência


Sempre se discutiu e preconizou que a ciência é um empreendimento aberto a críticas e evolui a partir das próprias falhas. Esse foi e deve ser o princípio que a rege, pois se for diferente, ela passa a ser outro tipo de conhecimento, que não ciência. Esse é, com certeza, a força que possui: submeter as boas (e até mesmo más) ideias aos pares. A crítica das idéias é o seu motor.




Para que estas ideias sejam veiculadas, os principais mecanismos de divulgação são os periódicos científicos. Neles, os próprios pares - os cientistas - são os agentes que avaliam se o que está escrito nos artigos foi adequadamente redigido, se o método aplicado está em harmonia com os cânones da ciência e se os resultados conseguem efetivamente confirmar o que já se sabe ou se há a inclusão de algo diferenciado. Após isso, há a indicação ou não de publicação do artigo.

Na maioria dos bons periódicos esta avaliação é feita às cegas, ou seja, quem recebe o artigo encaminhado não sabe quem o escreveu. Assim, haveria uma avaliação mais segura, visto que eventuais influências políticas seriam evitadas, por um processo chamado de avaliação cega por pares (blind peer review).

Mas é interessante observar que, se o processo blind peer review é confiável, algumas políticas editoriais podem ser plenamente questionáveis. Recentemente enviei um artigo para uma revista muito bem qualificada, com assunto totalmente compatível com a proposta temática do periódico e com método adequado. Entretanto, para minha surpresa, recebi uma resposta rápida (o que também não é muito comum em periódicos bastante visados) e amarga: o artigo simplesmente não foi aceito, com pelo menos duas justificativas questionáveis - uma delas dizia que a "relevância" não estava de acordo com os critérios da revista, e a outra dizia que, em virtude do "grande volume" de submissões, muito maior do que podem publicar, ele não passou na pré-avaliação.

Não teria nenhum problema em aceitar um não por uma má qualidade do artigo, ou por ter resultados discutíveis, ou mesmo por outros fatores. Mas isso sequer aconteceu. Não tenho uma visão ingênua e romântica de que não há influências nos processos de seleção de artigos, tanto que aconteceu neste caso como acontece em tantos outros. O que acho deplorável é que há critérios obscuros que interferem na produção da ciência, às vezes com a conivência e aceitação dos próprios cientistas. Reservas de mercado em publicações e outros fatores devem ser combatidos e denunciados. Infelizmente não possuo nenhuma prova cabal disto, e penso que ninguém possua. Mas peço aos editores de periódicos científicos um sério exame de consciência, para que não se priorizem elementos não científicos na seleção. Dar uma oportunidade igualitária a todos deve ser característica da boa ciência e dos bons periódicos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A psicologia não é a ciência da alma

Uma das primeiras coisas que um estudante de psicologia discute na faculdade é a definição de sua futura área de atuação. No primeiro semestre, as disciplinas apresentam um histórico de como a psicologia foi se constituindo, e constata-se que, em seus primórdios, ela era definida como o estudo (logos) da alma ou espírito (psiqué).


De acordo com o professor William Gomes, do instituto de psicologia da UFRGS, o termo apareceu inicialmente como título de um livro publicado em 1590 por Rudolf Goclenius. Na obra, a definição de psicologia refere-se ao estudo da alma, psique ou da mente. A partir daí, o termo começou a se popularizar gradativamente, e em 1879, quando a psicologia como ciência nasce se separando da filosofia, com a criação do laboratório de psicologia por Wilhelm Wund na universidade de Leipzig na Alemanha, ela torna-se a ciência da mente e do comportamento.

Mas é interessante observar que no imaginário das pessoas, e até mesmo de profissionais da área da saúde, persiste a definição da psicologia como o estudo da alma, e vez por outra o encontramos em artigos e entrevistas. Esta conceituação não é a mais adequada, por várias razões. Primeiramente, quando se fala em alma remete-se, em maior ou menor grau, à crença na existência de algo "imaterial", da qual não se tem comprovada cientificamente a existência. Desta forma, como se pode estudar cientificamente algo que não se pode identificar com clareza, nem manipular de alguma forma? Em segundo lugar, existe uma conotação místico/religiosa quando se fala em alma, pois se pressupõe a existência de algo que persiste à vida do corpo. Assim, seria impossível que ateus, agnósticos ou outros que negassem a existência de algo além do corpo pudessem ser psicólogos, pois ou seriam psicólogos, admitindo essa entidade que controla o comportamento, ou não poderiam ser ateus ou agnósticos.

Atualmente, o corpo científico oficial reconhece que o cérebro é responsável pelo controle e manifestação do comportamento. Existe uma base biológica que permite que possamos nos lembrar, pensar, prestar atenção ao mundo, nos relacionarmos com os outros e amar. E essa base, o cérebro, pode ser manipulada e controlada de várias formas, sem que seja necessário considerar a existência de algo supramaterial. Isso não quer dizer que a psicologia é contra as crenças das pessoas; crer em algo pode ser um bom elemento de prevenção de sofrimento mental. Quer dizer somente que é fundamental deixar demarcadas as fronteiras entre as crenças religiosas e espirituais e a ciência. Só assim será possível fazer boa ciência e deixar que as pessoas mantenham as suas crenças, sem conflitos diretos com o conhecimento científico.

Afinal, nunca é demais dizer, religião e ciência são coisas diferentes, tratam de problemas diferentes; se a religião diz como as pessoas devem se comportar para encontrar a paz ou a salvação, a ciência se ocupa de compreender como o mundo funciona. Por estas razões, é mais acertado dizer que a psicologia é a ciência do comportamento, ou da mente, e não o estudo da alma. Ao fazer isso, mantemos cada coisa em seu lugar.

*Publicado no jornal O Nacional, de 16 e 17 de fevereiro de 2013.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O que funciona no tratamento da depressão?


Há algum tempo, a depressão foi considerada o mal do século. Infelizmente este título lhe faz jus, tendo-se em vista os enormes prejuízos sociais e laborais que este transtorno é capaz de gerar.

Estatísticas recentes da Organização Mundial da Saúde apontam que entre 10 e 20 por cento da população já teve ou terá um transtorno depressivo ao longo de sua vida. Resumidamente, os principais sintomas que a depressão apresenta são perda do interesse ou prazer, humor deprimido, mudanças de peso sem serem programadas por dietas ou outras intervenções, insônia ou sono excessivo e fadiga. Pode ocorrer também irritabilidade com agitação, sentimentos de culpa excessivos e dificuldade de concentração, além de pensamentos relacionados com a morte. Estes sintomas precisam estar presentes por, pelo menos, duas semanas, durante todos os dias ou por boa parte dos dias. Portanto, é plenamente compreensível que este seja um transtorno preocupante e incapacitante para as pessoas.


De forma diferente de outras condições médicas, a depressão é um quadro complexo que exige dos psicólogos, psiquiatras e demais profissionais da saúde uma atenção para o diagnóstico e o tratamento. Isso se deve ao fato de que os transtornos mentais são causados, em parte, por fatores biológicos, como a genética, e em parte por fatores comportamentais, como por exemplo a criação, relacionamento com as pessoas significativas e o estresse ambiental. Essa combinação complexa de fatores é única para cada paciente, e precisa ser levada em conta no diagnóstico e no tratamento. Sem atacar estas duas pontas, o problema permanecerá existindo com intensidade.

Não existe atualmente uma fórmula única e infalível para o tratamento da depressão. Embora a indústria farmacêutica avance a cada dia, oferecendo novas estratégias mais eficientes no combate aos sintomas depressivos, dificilmente uma medicação sozinha terá a palavra final no tratamento deste transtorno. Em pesquisa recente publicada pela PLOS ONE, onde Arif Khan, da Northwest Clinical Research Center de Washington, fez um levantamento com 13.802 pacientes que participaram de estudos sobre a depressão entre os anos de 1979 e 2001, foi identificado que o melhor tratamento contra os sintomas depressivos é uma combinação entre psicoterapia e a administração de medicamentos. Esse resultado foi melhor em comparação com a administração isolada de medicamentos e melhor também do que a psicoterapia somente. Assim, há sólidas evidências que é a combinação entre psicoterapia e medicamento o que faz a diferença no tratamento dos quadros depressivos.

Resta por fim lamentar que os convênios não sejam suficientemente sensíveis a estes dados de pesquisas. Focados ainda nos tratamentos médico-biológicos tradicionais, são raros os que aceitam cadastramento de psicólogos para tratamento psicoterápico. Muito se melhoraria a qualidade de vida dos pacientes e a velocidade de resposta terapêutica, com menos dias de hospitalização e outros efeitos danosos, se estes dados fossem considerados. Talvez somente por força de lei, que já vem fazendo bons progressos nos últimos anos, e com muita, mas muita reclamação dos conveniados, que esta barreira seja finalmente derrubada.

*Artigo publicado no jornal O Nacional, de 5 e 6 de janeiro de 2013

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A necessidade de renovação


A capacidade de adaptação ao ambiente é uma das propriedades dos seres vivos. Esta habilidade permite que o organismo e as espécies se ajustem às mudanças ambientais normais e esperadas, tanto quanto àquelas que não estão previstas. Sem a capacidade de adaptação e mudança, os seres vivos estariam extintos.


No caso dos seres humanos, há uma combinação fina e complexa entre a adaptação e a capacidade de mudança. Pela nossa herança evolutiva, possuímos uma forte tendência a nos ajustarmos comportamentalmente a uma determinada situação, e após este ajuste não temos muito interesse em fazer novas mudanças de comportamento. Do ponto de vista cognitivo essa estabilidade é importante, pois nos garante certa permanência de respostas de comportamento: se um comportamento funcionou bem no passado, por várias vezes, ele possui boa probabilidade de funcionar bem em situações semelhantes no futuro. Isso explica, em parte, porque é tão difícil mudar velhos hábitos, especialmente se eles foram bastante reforçados.

Mas a mudança é necessária, e periodicamente ela mostra suas exigências. Ela é o indicador inequívoco de que a natureza, o mundo, as pessoas não são estáticos, e isso exige sempre, em alguma medida, uma resposta do organismo. Essas mudanças podem ser superficiais, como as coisas simples do dia a dia como comprar uma roupa nova, ou podem ser essenciais e marcantes; essas exigem os esforços mais profundos e causam as dores mais significativas, porque provocam uma revisão na forma como nos comportamos, como vemos as coisas. Mudanças assim são dolorosas, e por isso acabamos adiando, resistindo, negando.

Estamos novamente nos aproximando de um período que tradicionalmente as pessoas reveem seus comportamentos, conceitos e expectativas sobre a vida. É um momento no qual a mudança pode acontecer mais facilmente porque existe uma sensibilidade para a avaliação e a mudança. Mas estamos falando das superficiais ou das profundas? É uma mudança de visão de mundo? De alguns paradigmas, pelo menos? Os esquemas cognitivos nos dão parâmetros para lidar com o mundo, mas em algum momento eles mesmos necessitam de revisão. Por óbvio que as mudanças superficiais são as mais fáceis, mas as mudanças de referência, de esquema de mundo, são as mais duradouras. O esforço de mudar algum aspecto enraizado de nosso comportamento é grande, mas ele está acompanhado geralmente de bons ganhos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O IDEB e os desafios da educação


Preocupantes os dados educacionais do último Índice de Educação da Educação Básica (IDEB). O Rio Grande do Sul apresentou uma estagnação da nota no ensino fundamental, e no ensino médio ocorreu uma diminuição do desempenho, de acordo com os resultados apresentados nesta semana.


Cabe então refletir sobre as causas deste desempenho fraco e sobre o que necessita ser feito para melhorar a educação, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio. São vários os fatores que geraram estes baixos índices, tais como as precárias condições físicas de ensino das escolas públicas, falta de renovação de acervo bibliográfico e investimento em mídias de ensino, além de problemas mais complexos, como a estruturação das matrizes curriculares e a remuneração dos professores. Mas isto não é novidade, pois há vários governos estamos nos defrontando com os mesmos problemas, e as soluções oferecidas são muito pontuais e transitórias. Se juntarmos a isso uma cultura brasileira imediatista e que não valoriza o ensino de excelência com o crescente número de professores sem estímulo intelectual e financeiro para desempenhar o seu trabalho, sem boas perspectivas de carreira, temos a tragédia instalada. Estão aí os números a confirmar.

Não é possível mudar a educação brasileira, aproximando-a de países destacados como a Coréia do Sul, sem alterações profundas e prolongadas. Mas para isso, é necessário rever muita coisa: a formação pedagógica de nossos professores, as propostas de currículo e, principalmente, a forma como o ensino acontece no dia a dia. Também é fundamental termos os pais como aliados no processo educacional, porque de nada adianta delegar para a escola tarefas que devem deles, pois também os pais precisam compreender e auxiliar o trabalho dos professores.

Tal como a educação dos nossos filhos, que não ocorre do dia para a noite, a educação dos nossos alunos também precisa ser inteligente, adequada às necessidades atuais e prevendo o que desejamos para nossos futuros cidadãos e profissionais. E não temos como delegar isso a terceiros, esperando por um milagre. Cada um de nós precisa ser o agente desta mudança hoje. Então, se você tem filhos, se você é estudante ou professor, pense e modifique a forma como está agindo, e faça isso dia a dia, hoje, amanhã, depois. Participe das reuniões de escola, converse com os professores e diretores, veja se a forma como a aula é ministrada faz a diferença na vida dos alunos, se pergunte se este é o melhor ensino possível. Não vai mudar amanhã, mas se o começo não for hoje, jamais acontecerá.

*Publicado no jornal Diário da Manhã, de 28 de agosto de 2012.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O cérebro escaneado


A compreensão sobre o funcionamento do cérebro está prestes a efetuar um avanço gigantesco. Philip Low, da NeuroVigil, construiu em sua tese de doutorado um algoritmo de análise de ondas cerebrais capaz de decodificar o complexo sistema de comunicação entre os neurônios. Saber qual informação trafega entre as diversas redes neurais é fundamental para se compreender o status de funcionamento do cérebro.

O iBrain, como é chamado o equipamento, consiste em alguns eletrodos capazes de receber ondas cerebrais de várias partes do cérebro. A vantagem, em relação a equipamentos tradicionais, é que o iBrain capta o funcionamento cerebral como um todo e após o decodifica com base no algoritmo de Philip. Esta decodificação permite que um computador possa identificar eventos cerebrais distintos, como a representação de "alto" e "baixo", que são fundamentais para a constituição de comandos diversos.



Um dos primeiros candidatos ao uso do iBrain é o físico Stephen Hawking, professor lucasiano de matemática da universidade de Oxford e considerado por muitos o físico mais brilhante após Albert Einstein. Hawking é portador de uma doença degenerativa, chamada de esclerose amiotrófica lateral, que vem progressivamente eliminando sua capacidade de movimento. Há anos utilizando uma interface que permite sua comunicação através de movimentos oculares, O iBrain pode ser a estratégia que facilitará a Hawking a comunicação, libertando sua mente de sua cada vez mais restrita capacidade de movimentação.

Os avanços tecnológicos permitidos por este recurso irão permitir que, no futuro, pessoas com graves dificuldades de movimentação possam utilizar as ondas cerebrais para comandar próteses, com redução ou sem a necessidade de implantes físicos. Além disso, permitirá um número gigantesco de possibilidades, como o controle à distância de equipamentos diversos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Psicologia IMED conquista conceito 4

O curso de Psicologia da IMED recebeu conceito 4 pelo MEC.

Parabéns a todos da IMED, especialmente os professores, funcionários e alunos do curso de psicologia por esta grande conquista!

Somos o melhor curso de psicologia da região e um dos melhores do estado!




sábado, 26 de maio de 2012

Problemas com o DSM-5?


Uma postagem de Rafael Garcia no blog Teoria de Tudo, da Folha, apontou que existe um sinal de alerta ligado na psiquiatria com a mudança do DSM-IV para o DSM-5.

Manuais de diagnóstico sempre foram motivos de polêmica na psicologia. Necessários na ótica dos psiquiatras e de quem faz avaliação psicológica, por exemplo, são duramente criticados por psicólogos que militam contra uma categorização do sofrimento mental, defendendo que este fenômeno é tão complexo e pessoal que não justificaria um "reducionismo". Discussões à parte, os manuais existem e vão continuar existindo. Talvez o ponto de equilíbrio seja o bom-senso de apontar em quais situações uma boa descrição é necessária para fundamentar um bom tratamento.



Um dos pontos levantados na discussão do DSM-5 é em relação à depressão. A reunião propôs que o luto (tristeza esperada após uma perda real, como o falecimento de uma pessoa da família, por exemplo) fosse inserido como critério diagnóstico na nova versão, coisa que não existia na versão IV. O que acaba sendo polêmica é a consequência: medicalizar o luto pode ser, em alguns casos necessário, mas o sofrimento que faz parte da perda precisa ser, na medida justa, elaborado, para que a vida continue. Por óbvio que a dor não pode permanecer em definitivo, mas viver a dor é também necessário.

Garcia levanta outros pontos polêmicos do novo manual, como o transtorno misto de ansiedade e depressão, que consta na CID-10 (F41.2) mas não no DSM-IV como diagnóstico específico. Este diagnóstico é indicado quando o clínico não identifica com clareza se há predomínio de ansiedade ou de depressão; entretanto, pode-se pensar que este seria um diagnóstico de "exclusão" ou provisório, na ausência de melhores informações.

Alterações que parecem promissoras referem-se à inclusão de categorias de transtornos, como os transtornos neurodesenvolvimentais, os transtornos de eliminação (separados dos transtornos identificados pela primeira vez na infância e adolescência), a organização em duas categorias dos transtornos de fundo sexual (disfunções sexuais e disforia de gênero), e a inclusão de transtornos neurocognitivos. Já foi comentado em outro post  a inclusão no DSM-5 do transtorno disfórico pré-menstrual, distinto dos transtornos de humor, mas a eles relacionado.

A lista para consulta da proposta de diagnósticos do DSM-5 pode ser consultada aqui (em inglês).

sexta-feira, 30 de março de 2012

A coincidência dos astros

Quando duas coisas ocorrem ao mesmo tempo, é bastante comum que pensemos que estes eventos possam estar relacionados. Se houver uma periodicidade entre eles, ainda mais certeza teremos de que, de fato, eles devem ter algum tipo de ligação, mesmo que esta ligação seja oculta.

Imaginemos que em determinado grupo humano vivendo no passado, num tempo onde a agricultura e a pecuária ainda estavam em processo de domesticação, alguém observa que sempre que as plantas começam o processo de brotamento, dá-se início à época de colheitas ou os rebanhos voltam a aparecer, uma determinada estrela aparece no céu ou o sol se põe num lugar específico do horizonte. O que de início é uma coincidência, com o passar do tempo e das gerações passa a ser um indicador de que a fartura está chegando.




Como a sobrevivência sempre foi e será um tema importante para a humanidade, ter a informação sobre este fato é fundamental. Assim, a cultura desta comunidade assimila que estes dois eventos estão relacionados.

O cérebro humano é programado para identificar padrões e, se eles não existirem, para criá-los, reduzindo, assim, a incerteza. Portanto, fica fácil imaginar que as estrelas, planetas, sol e lua não seriam apenas marcadores de eventos de fartura, mas que elas os provocariam. Afinal de contas, o grupo humano não possui bom controle sobre os eventos agrícolas e pecuários, mas a natureza pode ser capaz de determinar quando eles devem ocorrer. Deve haver uma vontade, além da vontade humana, que rege a natureza. E esta vontade pode ser a vontade das estrelas.

A astrologia nasce assim, da necessidade do homem em compreender e controlar o seu destino, pois se existe uma vontade superior que controla o comportamento das plantas e dos animais, por que seria diferente com o comportamento humano?